Transformando e inspirando a cena da música

Monique Dardenne tem 35 anos e é formada em direito. Se tornar delegada federal fazia parte de seus planos até o momento em que se viu uma agente transformadora da cena musical brasileira.

Há mais de 15 anos no mercado da indústria musical e atualmente manager de artistas, fundadora da MD/Agency e co-fundadora do Women’s Music Event, uma plataforma voltada para as mulheres na música. Monique foi responsável por trazer ao Brasil, incluindo com uma edição em Recife no Forte do Brum, o Boiler Room, fundado em Londres e com o intuito de promover um intercâmbio com as cenas noturnas locais. Também trouxe ao Brasil nomes como Snoop Dogg e Pitbull. Dardenne comenta que, apesar de sua graduação na área jurídica, a faculdade da vida foi onde mais aprendeu. Assídua por música desde pequena, Monique afirma que em sua adolescência era ela quem apresentava novas músicas a seus amigos e hoje, não é diferente, com uma pesquisa aprofundada, a mesma compartilha quase que diariamente seus gostos e achados.

Conversamos um pouco com esta grande profissional e inspiração para muitas mulheres sobre sua trajetória, a plataforma Women’s Music Event (WME) e a importância de conteúdos relevantes nos dias de hoje e da cena musical recifense.

Monique, como você conheceu e adentrou nesta área musical e o que você já fez até agora?

Monique – A música sempre foi muito presente na minha vida desde pequena pois meu pai tinha um hobby que era ser DJ, lá nos anos 80. A gente tinha todo equipamento em casa e naquela época não existia a tecnologia que tem hoje, então os mixers eram modulares, sendo algo mais roots sabe? Ele também tinha uma coleção de vinil muito grande, onde ouvia Depeche Mode, New Order, ou seja, a música eletrônica dos anos 80. Em seguida teve também o irmão do meu pai que era DJ e tocava em vários locais e que me apresentou à música eletrônica que a gente ouve mais nos dias de hoje. Cresci com uma boa influência musical e tive uma escola muito boa na adolescência, pois meu pai era amigo dos donos dos clubs em São Paulo, então eu sempre tive a facilidade de entrar nos lugares.

Iniciei direito, pois queria ser delegada federal. Na faculdade, com 18 anos comecei fazendo booking pro Propulse, que na época tinha o projeto Influx, um dos primeiros Lives PAs do Brasil, e depois eu me vi desenvolvendo a cara desse projeto. Logo em seguida, me convidaram para trabalhar na agência Carambola, que fazia o Festival Tribe. Fiquei lá por quatro anos, fiz bookings de muitos artistas e pude participar de determinadas mudanças da agência. Ali, de fato, foi onde eu percebi que eu gostava tanto da música que aquele era o meu caminho, e não o direito.

Eu sempre fui muito proativa, sempre fui no detalhe, eu nunca fui muito superficial. Então se era para falar do artista, era uma coisa bem feita. Por exemplo, na época que o Gabe lançou o projeto Gabe e começou a tocar techno, essa transição eu participei completamente, da parte do CD e apresentação, todo esse pensamento já vinha dali e eu não sabia da onde vinha, mas vinha dentro de mim e eu estava conseguindo colocar em prática porque tinha conquistado o respeito das pessoas, pois levava o trabalho a sério e era ‘super’ antenada e muito nova, 23/24 anos. A partir disso, fui me aperfeiçoando com erros e acertos, tive bons professores e boas oportunidades.

Criei a MDA, agência que tenho até hoje. Eu nunca trabalhei muito com pop, sempre gostei de uma música mais conceitual e nesse meio tempo o pessoal do Boiler Room me procurou para representar eles no Brasil com minha agência, legalmente, e isso foi incrível pois comecei a trabalhar com ‘livestream’ que no Brasil não tinha. Neste momento recebi o convite para trabalhar no Skol Music na parte de relações internacionais e label manager. Lá foi uma escola, tive acesso a uma parte mais profissional, pois não somos quando o assunto é montar projeto, apresentação e captação de patrocínio.

A origem do WME veio a partir de um grupo no Facebook (Mulheres na música)?

Monique – Eu e a Cláudia Assef (jornalista especializada em música e também fundadora do WME) estávamos participando de um projeto da RedBull chamado Pulso, que é uma residência artística, e,  ao fim do evento, sentaram as 15 mulheres que estavam fazendo parte e a Cláudia começou a fazer perguntas como: você fez o Boiler Room mas quantas mulheres você colocou? E naquele momento refleti sobre e decidi conectar todas ali presente e algumas outras em um grupo no Facebook e quando deu 600 mulheres eu e a Clau sentamos para criar o evento, justamente para dar visibilidade e conexão entre as mulheres.

Existe também um banco de talentos. Como esses nomes podem ser encontrados por lá? Como funciona o cadastramento? É verdade o planejamento de um aplicativo?

Monique – Quando a gente lançou o site, porque pensamos no banco de profissionais? Pois todo mundo fala que não existe mulher fazendo alguma coisa. Aquela desculpa de: não estou chamando uma mulher porque não tem. E aí pensamos em um lugar onde as pessoas consigam achar essas mulheres nessas profissões. Criamos um lugar no site, onde se chama banco de profissionais, dividido por todos os estados do Brasil e 30 profissões. Então, qualquer mulher pode entrar lá, se cadastrar e deixar o seu perfil.

Lançamos isso a 3 anos e tem quase 1000 mulheres cadastradas e para fomentar precisa de dinheiro. A plataforma tem 5 pilares, e começamos a trabalhar a conferencia, a premiação que é o momento pop da plataforma. Enquanto isso, o site ficou parado na parte de conteúdo e a gente só movimentava quando tem os eventos e o banco de profissionais está ali, a gente não tem muita mídia, muito menos dinheiro para colocar. Mas esse ano a gente está fechando um contrato com uma marca e ela vai pagar o aplicativo para a gente começar a trabalhar e fazer mais laços. Isso não é nosso, é um mapa que a gente está fazendo as mulheres profissionais do Brasil e realmente abrindo o mercado para essas pessoas não terem mais desculpas de que não tão achando mulheres.

Como mulher, ainda vejo muitas perguntas do tipo: Como é ser mulher trabalhando em uma área onde os homens são a maioria? E sempre penso: No dia que não existir mais essas perguntas quer dizer que uma certa igualdade está sendo estabelecida. O que você acha disso? Inclusive seria um dos objetivos do WME?

Monique – Quando alguém chega para mim perguntando como é ser mulher trabalhando no mundo da música, eu pergunto: como é ser homem e usar cueca? A gente passou pelo momento onde era necessário ter esse tipo de pauta. Hoje o papel do WME é fazer conexões, criar oportunidades, mostrar o trabalho dessas mulheres e dar visibilidade, a gente não trata de nenhum assunto feminino no WME, você não vai sentar em um painel ‘Qual o papel de uma mulher no mercado da música’, já temos nosso papel, sabemos do nosso papel, agora a gente vai discutir sobre coisas do mercado que a gente não tem espaço para falar em outros lugares. Hoje ainda existem conferências que só tem homem e aí eu falo: não tem uma mulher capacitada para falar sobre esse negócio? O WME já se estabeleceu como uma conferência de música, ela não é um projeto feminino. Esse ano a gente criou diversos formatos novos para não ficar nessa de só painéis, workshops, estamos ditando tendências no mercado, por isso o WME é uma conferência de negócios.

De um aspecto geral (principalmente no sudeste do Brasil) o público está ficando mais engajado à procura de conteúdo e isso reflete nos eventos cheios como BRMC antigo RMC. Com isso, o que o conteúdo musical representa para ti, para cena e seu fortalecimento?

Monique – Existem pessoas e pessoas, as que estão ali na festa para tirar selfie, as que estão ali para dar uma paquerada e existem as que estão ali pela música. Informação é essencial, então você ter um conteúdo musical, onde você consiga trazer informação além do ‘oba oba’ é fundamental. Mas isso vai do público que você quer atingir, e o grande desafio do jornalismo musical (que praticamente não existe mais no Brasil) hoje é esse. A gente não tem mais espaço, é um álbum ou outro que a imprensa dá, mas o que estamos fazendo no WME é uma sessão ‘meu estúdio’, onde a gente entrevista mulheres produtoras sobre o processo criativo, equipamentos de estúdio para justamente tirar essa ideia de que mulher na música eletrônica não produz. Fizemos com a Nina Kraviz, com a Anna e entrevistamos a label manegement da Kompakt que é uma mulher foda, que cuida de todo processo interno e não falar: a mulher que está ali por trás… Não! é falar quem é você? O que você faz? o que está acontecendo dentro da gravadora? Qual é o seu trabalho e não porque é uma mulher, mas sim por ser uma profissional que está fazendo uma grande diferença dentro do ramo. Então é esse tipo de conteúdo que a gente precisa que não tem mais. Hoje em dia está todo mundo nas redes sociais e às vezes é confuso buscar a informação, ela está mais acessível, entretanto você tem que buscar o que você quer. Então a importância pelo conteúdo é essencial, é informação.

Aqui em Recife a realidade de presskits ou de fotos de divulgações de festas são ainda de mulheres com biquinis ou de pessoas com um certo padrão de beleza. Quais outros caminhos você sugere para que possamos mudar esta realidade?

Monique – Existe um movimento das meninas da Mamba lá em São Paulo que criaram uma festa muito foda que a conotação sexual que eles usam é a da liberdade das pessoas das mulheres. Mas eu acho que aqui a sociedade é muito machista, a mulher é bastante objetificada, então uma forma de mudança são os produtores não quererem usar essa conotação sexual. É desconstruir de dentro para fora.

Perguntas rápidas:

1-            Festas abertas ou fechadas? Fechadas

2-            Praia ou campo? Campo

3-            House ou techno? House

4-            CDJ ou Vinil? Vinil

5-            Guitarra ou baixo? Baixo

6-            Jaz ou Blues? Jaz

7-            Uma curiosidade sobre você: Pode não parecer, mas eu sou uma pessoa extremamente chorona. As pessoas acham que eu não tenho sentimento, mas eu sou mega sentimental.

Boiler Room Recife-PE.
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