A gênese da musica eletrônica em Pernambuco

Assim como em todos os grandes centros, as pistas de dança do recife foram evoluindo de forma simples e suave. Os conceitos de diversão noturna evoluíram a partir da informação, da formação de conceitos e da busca por algo novo. Vou enumerar vários nomes de DJs e casas responsáveis por algumas etapas dessa evolução, no entanto será impossível não destacar dois nomes: Tom Azevedo e Misty.

Na metade dos anos 70 começaram a aparecer várias opções de entretenimento em todos os segmentos e classes sociais, A disco, o funk, o soul e o rock eram os estilos que predominavam tanto nas boates dos bairros nobres, quanto nas equipes de som dos clubes das periferias, o que garantiu que uma legião de notívagos adentrasse o universo das pistas.

Para os DJs, na época apelidados de Discotecários, o acesso à informação se dava através das coletâneas em LP, discos promocionais distribuídos pelas gravadoras e pelo programa da rádio Transamérica (primeira FM do nordeste) chamado “Discoteque”, que mudou o nome em seguida para “Dancing Nights”, produzido e mixado pelo DJ Giancarlo Secci e transmitido em rede para 17 estados entre 1979 e 1983.

Conseguir música realmente era um trabalho de garimpo, uma peregrinação de loja em loja; mas havia também um grupo de privilegiados que encomendava discos do exterior, importação de discos foi uma prática comum até o fim dos 90, discos exclusivos não eram pra qualquer um, tinha que ter A FONTE!!

Recife já respirava os ares da Dance Music também nos celeiros alternativos da cidade, as boates LGBT+ eram onde os artistas, jornalistas, caricatas, performers, escritores e escritoras tinham espaço pra manifestar inúmeras formas de arte e expressão aliados à música de pista. E foi justamente em um desses clubs onde a influência do público começou a despertar o conceito de tocar algo mais “fora da curva”, sonoridades fora do comum foram gradativamente introduzidas na cena com o “Café concerto Misty” do DJ Tom Azevedo.

Inicialmente, entre 1979 e 1982, funcionou na rua do Riachuelo. De 1983 a 1993 adotou o nome “Misty Bar e Boite”, e mudou para Rua das Ninfas (Onde em seguida funcionaram os clubs: Doktor Froid, Alcatraz, Disco Queen e atual Metrópole Disco).

Os anos 80 chegaram e várias boates com seus respectivos DJs fizeram grande sucesso no Recife como: Pigalle, Lakadóro, Esquina 90, Leandro’s, Champagne, Broadway, Corpos e copos, entre outras… mas todas tocando os inúmeros hits da época. Enquanto isso, nos clubes das periferias, as equipes de som já embalavam os dancers com o melhor do repertório Funk, Electro-funk e o movimento Break dance. Só que para o DJ Tom Azevedo, na Misty, a coisa fluía de uma forma diferente. Para ele era importante tocar as músicas do momento unindo com quase tudo o que não era óbvio para uma pista convencional (Diga-se para o momento, músicas underground). Em uma conversa, ele me revelou que dentre receber discos promocionais escanteados, artistas desconhecidos que ninguém queria tocar e apostar num lado B de um disco que só tocava o lado A, ele conseguia achar um hit que funcionava perfeitamente em sua pista.

Lição: Acreditar na música!

Em algumas fases ele dividiu a residência com outros grandes nomes como Rogério Gibson, Chico e Barreto, que traziam suas influências Pop e House para equilibrar o que viria a ser uma casa formadora de opinião.

​Por volta de 1987 a Dance Music já evoluía de forma frenética no mundo e os estilos musicais se transformavam. A Disco Music se tornou a House Music, tornando-se a matriz da maioria dos estilos e ramificações. Não seria surpresa os DJs em Recife logo se identificarem e dinamizarem suas pistas. Boates como Puppis, Showbizz, Over Point, Paradise, Liverpool, Cravo e Canela, tocavam o que havia de melhor da House Music, Acid House, Technopop.

​Pela contramão, lá estava a boate Misty tocando o lado B desses segmentos e em paralelo criando suas próprias tendências. Tom já tinha grandes fontes de pesquisa e já fazia algumas viagens de garimpo dentro e fora do Brasil. Em primeira mão, Recife tinha um local onde se tocava EBM (Electronic Body Music), New beat, Synth-pop, Industrial, New Wave e o Rock alternativo. Estilos musicais de gravadoras desconhecidas, bandas e artistas que traziam uma mistura de rock com eletrônico, vocais pesados, linhas de baixo sintetizadas, melodias desconexas… Era o som criado nos guetos europeus. Quem queria ouvir e dançar um som mais pesado frequentava a Misty e posteriormente casas que se inspiraram em sua ousadia, como: New hits, Araras, Liberty.

Não podemos esquecer de Bares como o Poção Mágica, Atitude Noturna e Depois do Escuro, que serviam de esquenta pra galera agrupar e seguir para a Misty e outras casas.

O primordial foi a coisa fluir sem pretensões e sem pressa. Empresários da noite, DJs e formadores de opinião estavam envolvidos num ideal que era fazer o público dançar, trazer novidades e trabalhar as músicas e artistas por longos períodos. Era preciso sair de casa para absorver cultura, informação e diversão numa época onde tudo era mais difícil. Frequentar lugares que, mesmo sem saber, estavam nos entregando essa diversidade musical, criando nossa própria identidade.

Para tudo isso acontecer, muitos precisaram se libertar de preconceitos e julgamentos, isso nos proporcionou boas atmosferas e fez com que fossemos os primeiros a provar dos encantos da música eletrônica.

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Batestaca terá edição de Carnaval com Noporn (SP) em Olinda

A festa começa na rua, segue o bloco e termina no aguardado after. Ao todo, somam mais de 16h de curtição.

Em Pernambuco você encontra o Carnaval mais diversificado e democrático do mundo: Frevo, coco, maracatu, caboclinho, manguebeat e suas variações, rock alternativo, brega e agora a música eletrônica tornam o estado um grandioso berço cultural e musical.

Agregando à causa, o projeto Batestaca resolveu fazer uma edição de Carnaval no dia 15 (sábado) em Olinda, começando ao meio-dia e terminando às 5h no dia seguinte. Ou seja, serão mais de 16 horas de muita música eletrônica no principal polo carnavalesco do Estado.

O projeto

A Batestaca nasceu como um braço eletrônico do famoso Som da Rural – carro psicodélico do Recife, responsável por disseminar, valorizar e incentivar a cultural local e o uso de espaços públicos.

Nesse sentido, com a Batestaca não poderia ser diferente. O espaço público é o seu principal terreno, valorizando a cena eletrônica local e ocupando a cidade com uma pista de dança indescritível.

A partir do momento que a cidade começa a dialogar com os novos estilos musicais, a música eletrônica ganha espaço e começa a ser pautada como integrante da multiculturalidade nordestina.

“A gente acredita que a Batestaca parte do pretexto de descentralizar a música eletrônica nacional, colocando ela em um ponto de integração entre a cidade, as pessoas e as sonoridades em todos os contextos que a música pode ocupar, desde o âmbito sociocultural até o festivo”, pontua Raquel Alves, co-fundadora da Batestaca.

Percebendo a necessidade de atentar-se aos movimentos eletrônicos locais e a infinita possibilidade de fazer novos ritmos e vertentes soarem pelos ambientes da cidade, o projeto conta com a Rural (modelo de carro da década de 60) como palco para as novas plataformas e tecnologias.

“Usar o Som na Rural como palco para isso faz todo sentido levando em conta o diálogo que o projeto vem traçando com a população, sendo desde sempre um ambiente de troca para a inovação da música em todos os contextos”, avalia Pedro de Renor, co-fundador da Batestaca.

Edição de Carnaval

Com mais de 16 horas de festa, a programação do evento foi dividida em três momentos:

1-Concentração (12h): Será no Sítio Seu Reis que fica por trás da Igreja do Carmo e irá contar com Léo, Nubian Queen, Kai b2b Vands (Dip DJs) e Bayma;

2-Saída do Bloco (17h): Responsável pela saída do Bloco, Libra comandará o cortejo, fazendo um percurso de 1,5 km que terminará em frente ao Recanto do Ingá (antigo Xinxim da Baiana) e local do after;

3-After (19h): Vão se apresentar Nadejda, Ultra, Geni b2b Mx, D’Renor e NoPorn, diretamente de São Paulo.

NOPORN

No ar desde o início dos anos 2000, quando tocavam em clubes de São Paulo, NoPorn estourou como um projeto de poesia recitada, marcada por batidas dançantes e versos sussurrados, revelando hits como Xingu e Baile de Peruas, do primeiro álbum da banda. Em 2016 eles lançaram “Boca”, segundo disco, que une sensualidade aos beats e vibe clubber do duo.

A apresentação conta também com os singles do disco mais recente, como Maiô da Mulher Maravilha, Cavalo e Tanto.

E você? Vai perder essa folia eletrônica pelas ladeiras de Olinda?

Ingressos: https://www.sympla.com.br/batestaca-de-carnaval—em-olinda__773781

Créditos foto: Pavoafotos

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HYPNOS + NBOMB: para algo além de uma festa

Com o objetivo de criar, fortalecer e firmar as produções LGBTQ+ em Recife, surge o evento HYPNOS + NBOMB.

Duas produções, com foco na celebração das diversidades artísticas envolvendo questões de gênero e um local de apreciação da cultura, onde se é pautado um ambiente de conforto e acolhimento que explora movimentações multi-artísticas. Os projetos buscam conceitos estéticos dissidentes para além de DJ sets, envolvendo aspectos da performance corporal, dança, fotografia, iluminação e audiovisual.

Isso tudo e muito mais são essas duas criações que, entendendo a ausência de festas focadas em música eletrônica dentro do cenário LGBTQ+, especialmente dentro do gênero do Techno, vem alimentando a agenda noturna da nossa cidade.

Começando pelo coletivo HYPNOS, festa pioneira do estilo musical em Recife que chegou a ter 6 integrantes, atualmente produzido por Pedro Vasconcelos e Kildery Iara, tendo André Antônio e Libra como DJs residentes. O projeto se formou com a ideia de criar ambientes férteis para o que sempre foi considerado dissonante no cenário mais amplo da cidade: Experimentos visuais e de performance das mais diferentes áreas (drag, teatro, cinema e dança) explorando espaços inusitados ou desconhecidos pela cidade e tudo de uma forma acessível aos mais diversos públicos e classes.

Já a NBOMB, que tem a Vic Chameleon (modelo e DJ residente do coletivo Réverse) como fundadora do projeto, pessoa trans não-binária de Jaboatão, decidiu tomar as rédeas e tocar o projeto. Após a segunda edição, que aconteceu como festa de lançamento do premiado filme “FRERVO” dentro do festival MOV, dirigido por Libra (DJ residente da NBomb) e Thiago Santos, adentrou à produção o casal Gabe Paraíso e Sasha Dowsley; duas mulheres trans, performers e personas ativas em produções da cidade, com o intuito de investir e somar para a ação de pessoas trans em espaços de protagonismo (principal aspecto e meta da festa).

Nessa primeira edição, onde as marcas se unem para fortalecer nossa cena e firmar as produções LGBTQ+ em Recife como referência para a cidade, a HYPNOS e NBOMB trazem Carol Mattos: Co-criadora do coletivo Masterplano (BH) e atualmente atua como produtora e DJ residente do selo Mamba Negra (SP). A Mamba Negra é um selo de festa/gravadora paulista de renome nacional e internacional, com suas produções ganhando espaço em festivais do mundo inteiro. Casa e incubadora da banda Teto Preto, a festa é encabeçada por mulheres que também trabalham construindo o protagonismo de mulheres cis e trans. A Mamba Negra já esteve presente em Recife dentro do Festival No Ar Coquetel, tanto com Teto Preto como com DJ sets de Cashu (co-produtora do selo) e Entropia entalpia (recifense, residente da festa).

Batemos um papo com o Pedro, Vic, Gabe e Sasha, sobre suas dificuldades, alguns esclarecimentos, sobre performances em festas, produções mais inclusivas nos dias de hoje e muito mais.

Vamos acompanhar?

Atualmente quais as maiores dificuldades que vocês encontram?

HYPNOS + NBOMB – Construir um espaço dissonante no início de 2017 até os dias atuais, numa cidade que não se interessava pelos gêneros que apostávamos (como Techno industrial, Acid, EBM e outros experimentalismos) e que tem até hoje como base uma cultura mainstream de música foi nosso primeiro problema, que rapidamente foi desaparecendo dada a adesão do público clubber LGBTQ. Achar locações era e continua muito dificil, não tinhamos grana nem contatos mágicos que apostassem na gente. Talvez o nosso maior problema até hoje seja a invisibilização dentro dos espaços mais hegemônicos, sempre pautados por agentes que fazem parte do status quo. Isso vem se mantendo até hoje, onde artistas e produtoras LGBTQ continuam não tendo o mesmo acesso e valorização.

Sempre vimos performances artísticas nos eventos que vocês produzem, ou seja, vocês fazem questão de introduzir por compreender a força de expressão e a necessidades desses espaços que merecem ser ocupados. Recife ainda não entende muito bem essa forma de arte. O que vocês têm a dizer sobre isso?

HYPNOS + NBOMB – Na real, acreditamos que o Brasil como um todo, de alguma forma, estará preparado para absorver a expressividade corpórea pois está atrelado no âmago da cultura brasileira – seja nas performances culturais do interior, do carnaval, religiosas, enfim; nossa questão é trazer um outro aspecto, diferente sobre a ideia de performatividade.

Com o passar do tempo é perceptível a mudança nas produções de festas. É pouco, mas vocês encontram um mercado mais inclusivo?

HYPNOS + NBOMB – Sim e Não. Sim, porque depois de muita insistência e textão, corpos LGBTQ (especialmente trans) passaram a ingressar e ascender no mercado. Isso é uma luta diária de todas as artistas de praticamente todos os roles que acontecem em Recife e que é necessária. Esses corpos DEVEM ter seu valor reconhecido. Mas, ao mesmo tempo, não. Ainda encontramos um mercado largamente produzido por homens cis héteros brancos de classe média alta e se formos falar de inclusão precisamos falar de toda uma cena que continua escanteada, especialmente negra, funcionando em “ghettos” e que não tem a mesma visibilidade e acesso que poucos têm.

Na cena eletrônica de Recife algumas festas promovem a ideia de “lista trans” com o objetivo de incluir essa comunidade ao cenário. Algumas pessoas entendem isso como um processo de exclusão, de exclusividade para quem é trans. Trouxemos esta pergunta porque ninguém melhor do que vocês para falarem sobre isso, sobre esses dois pontos de vista. Qual a opinião de vocês?

HYPNOS + NBOMB – Tendo o conhecimento sobre a política de inclusão para as pessoas trans, tanto a NBomb como a Hypnos observam que é de extrema necessidade. A lista trans foi desenvolvida para inserir nos espaços aqueles corpos que diariamente são atravessados pela transfobia, vai além de isentar do pagamento, é sobre reparação história e proporcionar momentos de lazer a corpos que, em sua maioria, não possuem acesso, já que durante muito tempo pessoas trans tiveram seus direitos básicos como acesso à educação e mercado de trabalho, negados perante a sociedade, inviabilizando sua presença em N espaços. Esse projeto de inclusão é paliativo, mas uma forma muito importante de aproximar o acesso dessas pessoas para que possamos cada vez mais dar espaço e voz a esses corpos. Que esse conceito inspire a presença dessas pessoas nas áreas de produção e artística dos rolês. É sobre isso!

E como sempre perguntamos… O que vocês acham da cena de música eletrônica de Recife?

HYPNOS + NBOMB – Sempre escutamos esse termo “cena de música eletrônica de Recife” e sempre nos questionamos: “de que cena estamos falando?”. Porque existe uma gama de festas LGBTQ+, pequenas e de médio porte que estão há ANOS construindo um espaço alternativo mas que não são inseridas nessa dita cena abrangente, não são validadas e não recebem a mesma atenção e interesse do público. Muitos dizem que “vão pela música”, mas vão pela música de fato? Fazer uma co-produção entre Hypnos e Nbomb em parceria com um selo no naipe da Mamba Negra (SP) é justamente nossa forma de dizer “ei, estamos aqui! Venham conhecer e curtir com a gente!” quebrar com essa hipocrisia que segrega, construindo esse lugar onde cada vez mais o preconceito fique de lado e haja uma valorização dentro dos espaços LGBTQ também!

O evento será dia 18/10/2019 (sexta-feira), no clube Metrópole às 23h e o line será:
• Carol Mattos (SP);
• Libra;
• Cherolainne;
• Desna;
• Avenoir.

Visuais:

• Sasha;
• Kimberly;
• Lindacelva.

Link para garantir seu ingresso:

https://www.eventbrite.com.br/e/nbomb-hypnos-tickets-72594777935.

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Um projeto não só de músicos, mas de uma união de criadores.

Com o objetivo de repensar modelos de shows musicais, espetáculos e com seu nascimento focado na multilinguagem, nasceu o Estesia.

Um encontro do duo e produtores musicais Pachka (Miguel Mendes e Tomás Brandão), com o cantor e compositor Carlos Filho e o iluminador cênico Cleison Ramos, que, em conjunto, elaboraram e realizam um espetáculo imersivo. Pensado como um espetáculo teatral, contemplativo e sinestésico, o Estesia agora possui uma abordagem mais catártica e festiva para construir Zonas Anárquicas Temporárias em bares, praças, palcos e casas. Amparado por recursos tecnológicos, Estesia convida o público a acompanhar de dentro do palco uma experiência híbrida de som e luz. A música conduz o espetáculo através do remix do gênero canção e de paisagens sonoras urbanas, eletrônicas e abstratas.

Estesia é também um projeto de pesquisa de seus criadores que experimentam possibilidades performáticas ainda não nomeadas para potencializar novas conexões artísticas e experiência coletivas singulares, como foi o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco que aconteceu no fim de maio deste ano no Portomídia.

Visando não só o palco, o projeto é fragmentado em 3 vertentes onde a primeira é o Estesia Palco (um show que une canção e paisagens sonoras urbanas e eletrônicas, como mencionamos anteriormente), Estesia Arena (uma experiência imersiva e interativa de som e luz que envolve a reconfiguração de espaços, também explicada no parágrafo anterior) e por fim o Estesia Convida ( é um intervenção artística e política que envolve um debate sobre música, tecnologia e produção cultural com convidados da região, seguido de uma apresentação inédita do Estesia + Convidadxs). E é neste último que iremos adentrar a fim de apresentar e convidar para a terceira temporada do projeto que aposta no encontro entre nomes da cena cultural pernambucana debatendo arte, resistência e produção. Serão quatro momentos, em agosto e setembro, com programação que inclui performances do grupo Estesia. A programação das noites será equilibrada com momentos de conversa informal com os artistas e produtores convidados, um show do Estesia com participações especiais e uma celebração final com DJs convidados. Os encontros quinzenais acontecerão a partir das 20h. Nesta temporada, o grupo Estesia receberá convidados como o cantor Barro, a poeta Bell Puã, a escritora Clarice Freire, o projeto Arrete e diversos outros agentes criativos do estado para conversar e trocar experiências sobre suas carreiras e discutir soluções criativas para os problemas atuais do mercado da arte e da cultura. “Queremos encontrar as pessoas onde elas estiverem e, considerando os tempos difíceis que vivemos, achamos que cultivar uma alegria subversiva é também uma forma de resistência. Por isso, o Estesia Convida é um evento gratuito e aberto a intervenções. Nós também queremos ouvir as pessoas”, pontua Carlos Filho. A terceira temporada do Estesia Convida tem como parceiros a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife e o SinsPire, onde será o evento.

Conversamos um pouco com um dos produtores musicais Pachka, Miguel Mende:

Percebe-se que a maioria dos eventos que vocês promovem como, o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco e agora o Estesia convida são de graça, como é conseguir o apoio necessário (como o da secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife) para confeccionar esses eventos?

Miguel Mende – Só para diferenciar, o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco foi um evento de um trabalho feito pelo Pachka (eu e Tomás Brandão) e o Estesia é essa outra entidade maior que envolve Carlos Filho e Cleison Ramo. Esses trabalhos que a gente faz a maioria deles não tem fins lucrativo, a gente quer discutir as coisas e ao mesmo tempo queremos acessar as pessoas. Então por exemplo, o Estesia convida é um evento que desde o primeiro dia ele vem sendo sem fins lucrativos. A gente colocou ingresso da primeira vez para cobrir os custos básicos e agora neste ano, temos o apoio da secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife, mas não faz com que a gente pague o cachê. Temos muita gente que trabalha e participa do Estesia convida, mas estão lá sabendo que não tem esse fim lucrativo, então ninguém ganha. O que acontece é que todo mundo acaba ganhando experiência e networking. Queremos que eventualmente seja um evento com fins lucrativos mas para isso têm que ter grana. Então por exemplo, este ano o Estesia convida teve um apoio onde irá garantir o sistema de som, os custos básicos do evento, mas não é o suficiente para pagar a temporada inteira, por isso chamamos de apoio. Já o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco feito pelo Pachka, ele foi dentro do projeto Funcultura e por isso, conseguimos fazer este evento, que não estava planejado pois teria um viés mais acadêmico de universidade, só que mais uma vez a gente nessa “doidice” sem fins lucrativos para aumentar a possibilidade, a gente pegou o pouco a semente que tínhamos que ia ser na própria faculdade, resolvemos fazer algo maior no Portomídia para envolver mais pessoas e não ter aquele aspecto tão acadêmico. Então o que era um simpósio virou este encontro que para a gente foi bem mais significativo. Temos bastante este hábito… queríamos muito fazer ‘as coisas’ remuneradas, a gente faz sem fins lucrativos para ‘as coisas’ acontecerem, mas é mais uma estratégia de sobrevivência da gente fazer um investimento para ‘as coisas’ acontecerem, porque se a gente esperar do jeito que o Brasil se encontra não acontecem. Então, esses eventos todos, o que sustenta (sendo bem sincero) são trabalhos fora que a gente faz na música individualmente ou em grupo), o Estesia faz apresentações por fora para pagar o Estesia convida ou a gente individualmente fazendo outros trabalhos. Este é o primeiro que talvez a gente faça um investimento menor porque a secretaria já deu uma contribuição com os custos, mas no ano passado por exemplo tivemos que fazer algumas apresentações (2 ou 3) para custear o evento e no primeiro ano, tivemos muito apoio, mas mesmo assim ainda é muito difícil de sustentar. Então estamos no terceiro ano com essa cabeça de resistir e fazer as coisas acontecerem.

Conta para gente, com a proposta de discutir a arte feita no Brasil hoje, qual outras questões que serão abordadas na terceira temporada do Estesia convida?

Miguel Mende – O Estesia vem de um background dessa pesquisa e dessa exploração da gente com interação da música feita em palcos e em cenas diferentes, como no teatro, dança… essa música que interage com outras coisas, a gente tem essa experiência de fazer trilha (eu e o Thomás) e o Cleison Ramos fazendo luz e Carlos de participar de eventos como o baile do menino Deus que envolve encenação. Não é só ir lá e cantar uma música, é você ir lá e participar de alguma coisa maior que simplesmente a música e temos muito essa relação com essa reflexão, sobre o que é essa arte presencial. Hoje discutimos muito sobre no Estesia, o que faz as pessoas saírem de casa? como é que a arte pode ser algo presente na vida das pessoas? Então o que fazemos é criar eventos e oportunidades para elas refletirem sobre isso. Inicialmente fazíamos algo mais voltado a uma imersão meio espiritual, com iluminação, muito sensorial, sensitivo, com o tempo alargado para que as pessoas tivessem tempo de refletir. Só que hoje percebemos que o Brasil está muito caótico, as pessoas estão muito ansiosas e a solução que a gente teve foi dialogar com as pessoas onde elas estão e a gente acabou transformando essas novas ações do Estesia, agora em 2019 em uma proposta mais festiva, meio etílica para as pessoas também terem um grau de ‘catarse coletivo’ sabe? Que já existia no Estesia antigo mas era uma catarse comportada porque era no teatro e existia uma formalidade ainda de espetáculo que estamos quebrando e querendo transformar o Estesia mais em uma intervenção explosiva em algum lugar (qualquer lugar que seja). O questionamento que fazemos da arte no Brasil é: como a gente constrói eventos artísticos significativos e presenciais porque estamos vivendo uma vida pautada pela comunicação digital e as pessoas tem dificuldade de sair de dentro de casa e o consumo do entretenimento é um consumo que às vezes faz mal, porque não é um consumo que traga uma reflexão sobre o que está sendo feito ali, ou às vezes é um consumo legal também, onde queremos participar do mundo do entretenimento, mas levando isso que a gente faz, esse embrião que criamos no teatro e agora virou essa festa louca meio catarse, meio congregação etílica de todo mundo. Inclusive, estamos pesquisando sobre ‘zonas anárquicas temporárias’ criar espaços de uma anarquia filosófica emocional, física, temporal… criar espaços onde as pessoas possam se sentir à vontade para serem o que elas são e pensar o que elas pensam e saber ser (o famoso) ser mais.

Vocês enxergam potencial da cena eletrônica aqui em Recife? Como fazer para sair do senso comum quando o assunto é produção?

Miguel Mende – Eu e o Thomas somos de um ambiente de música instrumental e entrou no mundo da música eletrônica pela necessidade de expandir nossa paleta de sons. Queríamos fazer sons diferentes e novos e eu acho que essa é uma tendência (não só no mundo, mas em Recife). Quando fizemos o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco, sentimos que tem uma latência, as pessoas não tem onde estudar (formalmente), as pessoas às vezes não se encontravam e muito menos sabem o que os outros estão fazendo. Eu vejo um potencial muito grande quando vejo uma Boikot, uma Revérse ou quando vejo uma cena de minimal surgindo e a gente quer muito participar, mas achamos que é muito importante entender e respeitar a cena atual que a cidade já tem dessa música eletrônica. Temos que ter o cuidado de não querer inventar uma cena do zero quando por exemplo (gostando ou não) já existe uma música eletrônica Pernambucana, como o BregaFunk que já tem muitos acessos. Então a gente tem sempre que pensar nisso quando queremos imaginar uma cena, temos que construir com a realidade da cidade e hoje é algo que o Estesia reflete (muito pelo Thomas que pesquisa isso) achamos que aponta para um caminho, não só um caminho do sucesso comercial, como um caminho que explora mais sonoridades, onde o instrumento musical pode ser algo além do convencional que, inclusive, pode ser algo de nossa cabeça com sons (é bem viajado, mas eu acho isso, rsrs). A cidade é muito criativa, muito musical e eu acho que para a gente sair disso, precisamos nos encontrar fisicamente e eu acho que o Estesia convida é um momento que a gente faz isso, a gente traz as pessoas para se encontrarem fisicamente e levantar problemas. E o que eu acho que as pessoas devem fazer para fortalecer a cena de Pernambuco de música eletrônica é cada grupo desses ter o seu ou alguma coisa convida, sabe?! É as pessoas provocarem o senso comum, porque as festas já são feitas e são muito boas, como a Reverse… mas eu acho que se a gente trouxesse esse momento de encontro da gente com a gente mesmo de pessoas novas que querem entrar no mercado, de novos agentes, eu acho que conseguimos sistematizar uma série de relações que permitem que a gente saia mais forte daqui, porque criar uma cena aqui é a gente trazer dinheiro para Pernambuco, investimento, grana… não tem como não falar em uma cena e em fortalecer a cadeia se a gente não fala em investimento, dinheiro e por fim, eu acho que esse debate é algo central do Estesia convida.

E por fim, o que move vocês? Ou seja, o que faz vocês fazerem o que fazem?

Miguel Mende – O que mais move a gente é a construção de novos espaços, criar novas formas e, se não existe, iremos dar um jeito de inventar. Eu acho que o Estesia é pensar um pouco nisto, essas novas formas em como a gente consegue se colocar falando de outro jeito, tendo outras relações. Por fim, seria esse amor que temos por fazer as coisas e principalmente fazer com novas formas. A gente cria um ambiente criativo, onde sentamos para criar e vai surgindo e depois queremos testar, mostrar e discutir em como outras pessoas podem fazer também.

PROGRAMAÇÃO:

Quinta-feira (15/08)

Conversa com Sunset Produções e Barro
Show Estesia + Part. de Barro
DJ

Quinta-feira (29/08)

Conversa com Bell Puã e Clarice Freire

Show Estesia + Bell Puã
DJ

Quinta-feira (12/09)

Conversa com Moacir dos Anjos & Arrete

Show Estesia + Part. de Arrete
DJ

Quinta-feira (26/09)

Conversa com A Tropa & Orun Santana

Show Estesia + Part. de Orun Santana
DJ

Show Estesia

Carlos Filho, Cleison Ramos, Miguel Mendes e Tomás Brandão Correia

SERVIÇO

ESTESIA CONVIDA

Datas: 15 e 29 de agosto e 12 e 26 de setembro

Local: SinsPire – Praça do Arsenal – R. da Guia, 237

Informações: (81) 98867-2702

Gratuito

Classificação: 16 anos

  • Foto capa: Marina Sobral
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