“A nossa constante busca por construir espaços receptivos e sinceros na 101ø é o grande segredo do nosso crescimento…”

Apesar das diferenças nesse país de proporções continentais, nós, brasileiros, compartilhamos determinados movimentos. A cena eletrônica de Belo Horizonte e do Recife, apesar da distância, demonstram estar sintonizadas. Eventos fortalecidos, inclusivos é uma busca pela valorização de artistas locais revelam que estamos no caminho certo.

João Vitor Cobat, com 25 anos, a mente por trás do projeto Omoloko, está no Recife para sua tour Nordeste. Cobat já passou por São Luiz do Maranhão e após se apresentar no Recife na festa do Coletivo Revérse, segue para Fortaleza.

Como um dos fundadores do coletivo 101ø em Belo Horizonte, recentemente teve sua festa transmitida pelo Boiler Room durante o Carnaval. João é um dos responsáveis pelo fortalecimento da cena eletrônica mineira, participando de movimentos que ocuparam espaços públicos e conectaram artistas de renome mundial.

O Dj tem construído seu legado dentro e fora do país, passando por vários eventos importantes como ODD e Gop Tun. Ainda neste ano, João fará sua estreia no Dekmantel (Holanda) e claro, em clubs de Berlim. Não poderia faltar né?

Nesta semana conversamos com o Omoloko, que compartilhou com a gente: “Há muito tempo eu não ficava tão ansioso para tocar em um lugar…”

Em uma entrevista exclusiva, batemos um papo relevante sobre o início da sua carreira como DJ, o significado do nome do seu projeto, o sucesso e dificuldades da cena mineira e muito mais…

Vamos nessa acompanhar?

Mas antes, um vídeo seu no Festival de fim ano XAMA 2019/2020 já para ler instigado…

Vídeo: Cognição Eletrônica

  • João Vitor, você é um dos criadores da festa 101ø e Curral em Belo Horizonte, como também é residente da Mientras Dura na mesma cidade. Seu projeto está presente em vários eventos nacionais e agora, em um festival internacional (Dekmantel Holanda-2020). Mas queremos saber, como foi seu início com a música eletrônica e quando foi que você decidiu ser DJ?

Omoloko: Minha relação com a música em geral começou desde de muito pequeno. Música sempre foi uma arte que me tocou de várias formas, eu quem arrumava as playlists que iam tocar quando eu viajava com meus pais e saia com meus amigos. Sempre fui muito curioso por achar novos sons, inclusive competia com meu irmão (que hoje é meu agente) quem encontrava as coisas mais desconhecidas.

Desde os 12/13 anos eu tinha o Virtual DJ instalado no meu computador e na época, sem internet, ficava mexendo nele e criando sets. Aos 18 anos fui ao meu primeiro festival de música em geral, o Universo Paralelo. Lá tive contato com um tipo de música que explodiu minha cabeça, com uma cultura de DJ que nunca havia presenciado. Sai de lá motivado a fazer aquilo da minha vida, principalmente depois de dançar mais de 16 horas na pista com o Voodoohop tocando. Nunca tinha ouvido aquele tipo de estilo na minha vida e estava totalmente encantado.

  • Explica um pouco a relação do nome do seu projeto (Omoloko) com a música eletrônica.

Omoloko: Logo depois do Universo Paralelo, estava me mudando pra Belo Horizonte para estudar engenharia química e fui para o estado, com uma ideia paralela de criar um projeto musical por lá. Assim surgiu o Omoloko, o nome é de uma religião, de matriz africana que mistura Umbanda com Candomblé. Lembro que era uma religião presente na minha vida durante o tempo que morei na Bahia, e adorava a ideia de misturar tanto a Umbanda quanto o Candomblé. Meus sets sempre tiveram esse intuito de misturar estilos musicais e de caminhar por essa combinação; Além de que, eu toco muita música com presença de percussão.

  • A criação de um evento e o objetivo de fortalecer a ‘cena’, através de festas em espaços públicos, clubes e festivais é sempre um trabalho exaustante, sendo necessário MUITA força de vontade para querer fazer acontecer. E é bem evidente que em Belo Horizonte, vocês estão conseguindo reproduzir muito bem tudo isso. Dessa forma, queremos saber quais foram os aspectos principais do sucesso da cena mineira? Ou seja, o que mais ajudou? As pessoas? Rede social? Conta para gente!

Omoloko: As coisas começaram do 0 em BH, eu faço parte desde o início dessa construção e acredito muito que o que fez a gente crescer foi a sinceridade que sempre entregamos para as pessoas. Eu sempre digo isso, e o que acho super revolucionário é a forma que mudamos o jeito de se sair à noite. Já fui impedido de entrar em boate em Belo Horizonte por estar de chinelo, imagina o tanto de outras opressões que esses lugares vinham cultivando… A nossa constante busca por construir espaços receptivos e sinceros é o grande segredo do nosso crescimento, ninguém é burro, todo mundo sabe quando está sendo passado para trás, quando está pagando um valor de entrada ou de bebidas abusivo, quando uma produção não se importa com a qualidade de um sistema de som, ou uma curadoria que não integra artistas locais, LGBTQI+, mulheres, negros nos line ups ou uma equipe de segurança que abusa de poder, uma festa com uma estrutura que não condiz com os valores arrecadados… As pessoas estão cada vez mais ligadas nisso e devem se atentar cada vez mais. A gente trabalha muito duro para entregar uma festa sincera para as pessoas que pagam para ir nela.

Outro fator importante para o crescimento da cena em geral, foi a comunicação entre as pessoas que estavam fazendo a mesma coisa que a gente, temos outros núcleos em Belo Horizonte e já brigamos muito, pôr na maioria das vezes coisas muito bestas. A partir do dia que entendemos que estávamos fazendo o mesmo na cidade e que as coisas deveriam ser boas para todo mundo, a cena tomou um caminho e uma proporção muito maior.

Está ligado nas pessoas interessadas em conhecer o que fazemos e passar esse conhecimento para frente, também foi outro fator primordial para as coisas chegarem onde estão.  Formar DJs, mostrar caminhos, falar sobre os nossos problemas, se encontrar para conversar, ouvir as necessidades de todos, formar cada vez mais produtores, etc.

  • A música é cíclica em qualquer lugar do mundo, independente da região. E consequentemente o mercado musical, acaba sendo da mesma forma. Para você, sendo DJ, como é se manter adaptável neste movimento tão intermitente?

Omoloko: Eu nunca imaginei que iria chegar a lugares que estou alcançando hoje em dia. E foi um processo difícil entender toda a acidez de um mercado que no nosso país movimenta muito dinheiro e que as oportunidades muitas vezes estão na mão de quem tem esses acessos. Os caminhos muitas vezes podem ser extremamente cruéis para artistas que não enxergam esse grande mercado por trás…

Eu procuro construir meu trabalho de uma forma muito pessoal e calorosa, gosto de ir aos lugares e interagir de forma mais presente com as cabeças por trás. Procurar entender como cada cena anda e me adaptar para poder integrar esses movimentos, conhecer como as coisas são feitas em cada lugar, entender as limitações de cada cena, ouvir os DJs que fazem o mesmo que eu por ali…. Acredito que dessa forma as pessoas conseguem entender mais de perto como tudo funciona e diminuir a distância que nos colocam como artistas, pois no final estamos todos fazendo as coisas do mesmo jeito e tentando caminhar para frente.

Acredito que dessa forma meu trabalho vai construindo uma base sólida com as pessoas e acho extremamente importante está sempre por perto e adaptável, entende?

  •       Sabemos que o Nordeste está um pouco distante de eventos e festivais do eixo musical (Sul e Sudeste do Brasil). Em Belo Horizonte, vocês passam ou já passaram por isso? Na sua opinião, como é possível diminuir essa distância, apesar do alto valor das passagens?

Omoloko: No início em BH, tínhamos uma cena muito focada em nós mesmo, nos nossos artistas locais e no que estávamos construindo. Isso ajudou muito a criar uma empatia do público com cada artista de lá, inclusive, contribuiu para que a gente construísse sonoridades únicas que só consigo enxergar em artistas por lá. Muitas das vezes nosso público fica muito mais empolgado quando colocamos uma pessoa de lá para tocar como headline do que uma pessoa de fora.

Eu sou nordestino e sempre achei muito cafona esse olho em São Paulo por exemplo, (que é onde está a maior cena do que a gente faz nesse país). É claro que temos grandes artistas por lá e uma cena gigante, porém temos também a mesma qualidade perto da gente, de festas, festivais e artistas. Acredito muito que o segredo é olhar cada vez mais por quem está perto e se desligar um pouco de grandes nomes que já tem grandes holofotes por cima.

Existe muito artista incrível por aí que não cobra um cache exorbitante e que não está em grandes festivais, mas que tem um trabalho incrível e que estão super dispostos a fazerem as coisas funcionarem, isso faz tudo girar! A gente, e principalmente o público (que é quem paga) precisa começar a credibilizar as pessoas pelo conjunto inteiro do trabalho e não pelos lugares que elas alcançam!

  • Sua tour pelo Nordeste já se iniciou, como tá a expectativa para os outros estados?

Omoloko: Há muito tempo eu não ficava tão ansioso para tocar em um lugar! Vir até aqui é um grande privilégio para mim, nasci em Currais Novos no Rio Grande do Norte e sei a dificuldade que é construir isso por esses lados. Quando recebi o convite da Revérse para vir até Recife, logo procurei outros núcleos em outras cidades para poder fazer essa tour funcionar, fizemos um grande pacotão, dividimos passagens, estou ficando na casa de cada produtor e vou ficar o mês inteiro por aqui conhecendo tudo!

Cheguei semana passada de São Luís, e tive contato com uma cidade que respira música eletrônica de vários níveis, fiquei muito surpreso com a festa que toquei, com os artistas que ouvi e com o empenho daquelas pessoas em construir esses espaços que falamos acima.

Em Recife eu já sinto uma cena muito mais pulsante e estou muito animado para tocar aqui no sábado. Sei que musicalmente vou poder ir em caminhos distintos do jeito que eu gosto, e já me sinto muito à vontade na cidade. Quero comer em Gildo Lanches todos os dias!

Próxima semana parto para Fortaleza e lá vou encontrar alguns amigos. Sei que existem alguns núcleos que andam fazendo festas por lá, tanto de pessoas mais novas quanto de pessoas que já fazem isso há mais tempo. Espero encontrar uma cena LGBTQI+ tão presente quanto a que sinto que vai ser aqui em Recife.

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O evento do Coletivo Revérse irá acontecer sábado (14/03) no Sinspire. O line ficará por conta da Avenoir, Cherolainne, JV e Omoloko.  Quem irá comandar os visuais desse rolê será Marcyanna e Menina Ácida.

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