HYPNOS + NBOMB: para algo além de uma festa

Com o objetivo de criar, fortalecer e firmar as produções LGBTQ+ em Recife, surge o evento HYPNOS + NBOMB.

Duas produções, com foco na celebração das diversidades artísticas envolvendo questões de gênero e um local de apreciação da cultura, onde se é pautado um ambiente de conforto e acolhimento que explora movimentações multi-artísticas. Os projetos buscam conceitos estéticos dissidentes para além de DJ sets, envolvendo aspectos da performance corporal, dança, fotografia, iluminação e audiovisual.

Isso tudo e muito mais são essas duas criações que, entendendo a ausência de festas focadas em música eletrônica dentro do cenário LGBTQ+, especialmente dentro do gênero do Techno, vem alimentando a agenda noturna da nossa cidade.

Começando pelo coletivo HYPNOS, festa pioneira do estilo musical em Recife que chegou a ter 6 integrantes, atualmente produzido por Pedro Vasconcelos e Kildery Iara, tendo André Antônio e Libra como DJs residentes. O projeto se formou com a ideia de criar ambientes férteis para o que sempre foi considerado dissonante no cenário mais amplo da cidade: Experimentos visuais e de performance das mais diferentes áreas (drag, teatro, cinema e dança) explorando espaços inusitados ou desconhecidos pela cidade e tudo de uma forma acessível aos mais diversos públicos e classes.

Já a NBOMB, que tem a Vic Chameleon (modelo e DJ residente do coletivo Réverse) como fundadora do projeto, pessoa trans não-binária de Jaboatão, decidiu tomar as rédeas e tocar o projeto. Após a segunda edição, que aconteceu como festa de lançamento do premiado filme “FRERVO” dentro do festival MOV, dirigido por Libra (DJ residente da NBomb) e Thiago Santos, adentrou à produção o casal Gabe Paraíso e Sasha Dowsley; duas mulheres trans, performers e personas ativas em produções da cidade, com o intuito de investir e somar para a ação de pessoas trans em espaços de protagonismo (principal aspecto e meta da festa).

Nessa primeira edição, onde as marcas se unem para fortalecer nossa cena e firmar as produções LGBTQ+ em Recife como referência para a cidade, a HYPNOS e NBOMB trazem Carol Mattos: Co-criadora do coletivo Masterplano (BH) e atualmente atua como produtora e DJ residente do selo Mamba Negra (SP). A Mamba Negra é um selo de festa/gravadora paulista de renome nacional e internacional, com suas produções ganhando espaço em festivais do mundo inteiro. Casa e incubadora da banda Teto Preto, a festa é encabeçada por mulheres que também trabalham construindo o protagonismo de mulheres cis e trans. A Mamba Negra já esteve presente em Recife dentro do Festival No Ar Coquetel, tanto com Teto Preto como com DJ sets de Cashu (co-produtora do selo) e Entropia entalpia (recifense, residente da festa).

Batemos um papo com o Pedro, Vic, Gabe e Sasha, sobre suas dificuldades, alguns esclarecimentos, sobre performances em festas, produções mais inclusivas nos dias de hoje e muito mais.

Vamos acompanhar?

Atualmente quais as maiores dificuldades que vocês encontram?

HYPNOS + NBOMB – Construir um espaço dissonante no início de 2017 até os dias atuais, numa cidade que não se interessava pelos gêneros que apostávamos (como Techno industrial, Acid, EBM e outros experimentalismos) e que tem até hoje como base uma cultura mainstream de música foi nosso primeiro problema, que rapidamente foi desaparecendo dada a adesão do público clubber LGBTQ. Achar locações era e continua muito dificil, não tinhamos grana nem contatos mágicos que apostassem na gente. Talvez o nosso maior problema até hoje seja a invisibilização dentro dos espaços mais hegemônicos, sempre pautados por agentes que fazem parte do status quo. Isso vem se mantendo até hoje, onde artistas e produtoras LGBTQ continuam não tendo o mesmo acesso e valorização.

Sempre vimos performances artísticas nos eventos que vocês produzem, ou seja, vocês fazem questão de introduzir por compreender a força de expressão e a necessidades desses espaços que merecem ser ocupados. Recife ainda não entende muito bem essa forma de arte. O que vocês têm a dizer sobre isso?

HYPNOS + NBOMB – Na real, acreditamos que o Brasil como um todo, de alguma forma, estará preparado para absorver a expressividade corpórea pois está atrelado no âmago da cultura brasileira – seja nas performances culturais do interior, do carnaval, religiosas, enfim; nossa questão é trazer um outro aspecto, diferente sobre a ideia de performatividade.

Com o passar do tempo é perceptível a mudança nas produções de festas. É pouco, mas vocês encontram um mercado mais inclusivo?

HYPNOS + NBOMB – Sim e Não. Sim, porque depois de muita insistência e textão, corpos LGBTQ (especialmente trans) passaram a ingressar e ascender no mercado. Isso é uma luta diária de todas as artistas de praticamente todos os roles que acontecem em Recife e que é necessária. Esses corpos DEVEM ter seu valor reconhecido. Mas, ao mesmo tempo, não. Ainda encontramos um mercado largamente produzido por homens cis héteros brancos de classe média alta e se formos falar de inclusão precisamos falar de toda uma cena que continua escanteada, especialmente negra, funcionando em “ghettos” e que não tem a mesma visibilidade e acesso que poucos têm.

Na cena eletrônica de Recife algumas festas promovem a ideia de “lista trans” com o objetivo de incluir essa comunidade ao cenário. Algumas pessoas entendem isso como um processo de exclusão, de exclusividade para quem é trans. Trouxemos esta pergunta porque ninguém melhor do que vocês para falarem sobre isso, sobre esses dois pontos de vista. Qual a opinião de vocês?

HYPNOS + NBOMB – Tendo o conhecimento sobre a política de inclusão para as pessoas trans, tanto a NBomb como a Hypnos observam que é de extrema necessidade. A lista trans foi desenvolvida para inserir nos espaços aqueles corpos que diariamente são atravessados pela transfobia, vai além de isentar do pagamento, é sobre reparação história e proporcionar momentos de lazer a corpos que, em sua maioria, não possuem acesso, já que durante muito tempo pessoas trans tiveram seus direitos básicos como acesso à educação e mercado de trabalho, negados perante a sociedade, inviabilizando sua presença em N espaços. Esse projeto de inclusão é paliativo, mas uma forma muito importante de aproximar o acesso dessas pessoas para que possamos cada vez mais dar espaço e voz a esses corpos. Que esse conceito inspire a presença dessas pessoas nas áreas de produção e artística dos rolês. É sobre isso!

E como sempre perguntamos… O que vocês acham da cena de música eletrônica de Recife?

HYPNOS + NBOMB – Sempre escutamos esse termo “cena de música eletrônica de Recife” e sempre nos questionamos: “de que cena estamos falando?”. Porque existe uma gama de festas LGBTQ+, pequenas e de médio porte que estão há ANOS construindo um espaço alternativo mas que não são inseridas nessa dita cena abrangente, não são validadas e não recebem a mesma atenção e interesse do público. Muitos dizem que “vão pela música”, mas vão pela música de fato? Fazer uma co-produção entre Hypnos e Nbomb em parceria com um selo no naipe da Mamba Negra (SP) é justamente nossa forma de dizer “ei, estamos aqui! Venham conhecer e curtir com a gente!” quebrar com essa hipocrisia que segrega, construindo esse lugar onde cada vez mais o preconceito fique de lado e haja uma valorização dentro dos espaços LGBTQ também!

O evento será dia 18/10/2019 (sexta-feira), no clube Metrópole às 23h e o line será:
• Carol Mattos (SP);
• Libra;
• Cherolainne;
• Desna;
• Avenoir.

Visuais:

• Sasha;
• Kimberly;
• Lindacelva.

Link para garantir seu ingresso:

https://www.eventbrite.com.br/e/nbomb-hypnos-tickets-72594777935.

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