A gênese da musica eletrônica em Pernambuco

Assim como em todos os grandes centros, as pistas de dança do recife foram evoluindo de forma simples e suave. Os conceitos de diversão noturna evoluíram a partir da informação, da formação de conceitos e da busca por algo novo. Vou enumerar vários nomes de DJs e casas responsáveis por algumas etapas dessa evolução, no entanto será impossível não destacar dois nomes: Tom Azevedo e Misty.

Na metade dos anos 70 começaram a aparecer várias opções de entretenimento em todos os segmentos e classes sociais, A disco, o funk, o soul e o rock eram os estilos que predominavam tanto nas boates dos bairros nobres, quanto nas equipes de som dos clubes das periferias, o que garantiu que uma legião de notívagos adentrasse o universo das pistas.

Para os DJs, na época apelidados de Discotecários, o acesso à informação se dava através das coletâneas em LP, discos promocionais distribuídos pelas gravadoras e pelo programa da rádio Transamérica (primeira FM do nordeste) chamado “Discoteque”, que mudou o nome em seguida para “Dancing Nights”, produzido e mixado pelo DJ Giancarlo Secci e transmitido em rede para 17 estados entre 1979 e 1983.

Conseguir música realmente era um trabalho de garimpo, uma peregrinação de loja em loja; mas havia também um grupo de privilegiados que encomendava discos do exterior, importação de discos foi uma prática comum até o fim dos 90, discos exclusivos não eram pra qualquer um, tinha que ter A FONTE!!

Recife já respirava os ares da Dance Music também nos celeiros alternativos da cidade, as boates LGBT+ eram onde os artistas, jornalistas, caricatas, performers, escritores e escritoras tinham espaço pra manifestar inúmeras formas de arte e expressão aliados à música de pista. E foi justamente em um desses clubs onde a influência do público começou a despertar o conceito de tocar algo mais “fora da curva”, sonoridades fora do comum foram gradativamente introduzidas na cena com o “Café concerto Misty” do DJ Tom Azevedo.

Inicialmente, entre 1979 e 1982, funcionou na rua do Riachuelo. De 1983 a 1993 adotou o nome “Misty Bar e Boite”, e mudou para Rua das Ninfas (Onde em seguida funcionaram os clubs: Doktor Froid, Alcatraz, Disco Queen e atual Metrópole Disco).

Os anos 80 chegaram e várias boates com seus respectivos DJs fizeram grande sucesso no Recife como: Pigalle, Lakadóro, Esquina 90, Leandro’s, Champagne, Broadway, Corpos e copos, entre outras… mas todas tocando os inúmeros hits da época. Enquanto isso, nos clubes das periferias, as equipes de som já embalavam os dancers com o melhor do repertório Funk, Electro-funk e o movimento Break dance. Só que para o DJ Tom Azevedo, na Misty, a coisa fluía de uma forma diferente. Para ele era importante tocar as músicas do momento unindo com quase tudo o que não era óbvio para uma pista convencional (Diga-se para o momento, músicas underground). Em uma conversa, ele me revelou que dentre receber discos promocionais escanteados, artistas desconhecidos que ninguém queria tocar e apostar num lado B de um disco que só tocava o lado A, ele conseguia achar um hit que funcionava perfeitamente em sua pista.

Lição: Acreditar na música!

Em algumas fases ele dividiu a residência com outros grandes nomes como Rogério Gibson, Chico e Barreto, que traziam suas influências Pop e House para equilibrar o que viria a ser uma casa formadora de opinião.

​Por volta de 1987 a Dance Music já evoluía de forma frenética no mundo e os estilos musicais se transformavam. A Disco Music se tornou a House Music, tornando-se a matriz da maioria dos estilos e ramificações. Não seria surpresa os DJs em Recife logo se identificarem e dinamizarem suas pistas. Boates como Puppis, Showbizz, Over Point, Paradise, Liverpool, Cravo e Canela, tocavam o que havia de melhor da House Music, Acid House, Technopop.

​Pela contramão, lá estava a boate Misty tocando o lado B desses segmentos e em paralelo criando suas próprias tendências. Tom já tinha grandes fontes de pesquisa e já fazia algumas viagens de garimpo dentro e fora do Brasil. Em primeira mão, Recife tinha um local onde se tocava EBM (Electronic Body Music), New beat, Synth-pop, Industrial, New Wave e o Rock alternativo. Estilos musicais de gravadoras desconhecidas, bandas e artistas que traziam uma mistura de rock com eletrônico, vocais pesados, linhas de baixo sintetizadas, melodias desconexas… Era o som criado nos guetos europeus. Quem queria ouvir e dançar um som mais pesado frequentava a Misty e posteriormente casas que se inspiraram em sua ousadia, como: New hits, Araras, Liberty.

Não podemos esquecer de Bares como o Poção Mágica, Atitude Noturna e Depois do Escuro, que serviam de esquenta pra galera agrupar e seguir para a Misty e outras casas.

O primordial foi a coisa fluir sem pretensões e sem pressa. Empresários da noite, DJs e formadores de opinião estavam envolvidos num ideal que era fazer o público dançar, trazer novidades e trabalhar as músicas e artistas por longos períodos. Era preciso sair de casa para absorver cultura, informação e diversão numa época onde tudo era mais difícil. Frequentar lugares que, mesmo sem saber, estavam nos entregando essa diversidade musical, criando nossa própria identidade.

Para tudo isso acontecer, muitos precisaram se libertar de preconceitos e julgamentos, isso nos proporcionou boas atmosferas e fez com que fossemos os primeiros a provar dos encantos da música eletrônica.

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