Ordinary John, o projeto que mistura pop com elementos eletrônicos dos anos 80

Após quatro lançamentos em inglês, seu quinto single aponta para um novo caminho artístico.

Nascido em 2019, Ordinary John é o projeto solo de João Figueirôa, jovem recifense promissor na cena de música nacional que carrega a seriedade da elaboração do som misturando acústico sofisticado, sonoridade do bedroom pop e elementos eletrônicos dos anos 80. O músico participa de todos os estágios da produção de suas faixas, desde a composição, gravação até a mixagem e masterização. Suas músicas trazem letras que falam sobre solidão, amizade, amor e um pouco de deslocamento social.

Após quatro lançamentos em inglês, Ordinary John entra em um novo caminho lançando seu novo single em português, adicionando influência do Dream Pop* ao Bedroom Pop. A faixa conta com elementos eletrônicos e vocais intimistas. “A música fala de como a solidão pode nos fazer tomar decisões questionáveis e acabar fazendo com que a gente se submeta a coisas que não nos fazem bem. Especificamente narra o ponto de vista de alguém que se põe como um prêmio de consolação para outra pessoa em troca de se sentir amado por ela, apenas por uma noite que seja’’, comenta. O single intitulado “Por essa noite” já está disponível nas plataformas digitais.

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Música nova. "Por Essa Noite".

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Convidamos João para bater um papo e comentar sobre sua trajetória, sua música e seu novo trabalho, se liga:

Como começou a descoberta do som em sua vida?
Na minha família nunca teve músico ou algo do gênero, mas nas reuniões sempre rolou muita música de background, mas não posso dizer que foi influência deles. Aos 14 anos comecei querer saber como funcionava as coisas que escutava na época a saber o por quê elas tocavam aquilo daquela forma e como era gravada. Sempre gostei de saber como tudo era feito até chegar naquela música. Me dediquei a aprender instrumentos e foi descobrindo como tocava baixo, violão, teclado, guitarra. Tudo por curiosidade.

Suas canções tem um apelo eletrônico em um pop sofisticado, como foi criar dentro deste formato? De onde surgiu a inspiração?
Essa mistura surgiu bem naturalmente, elementos eletrônicos de sintetizadores ali dos anos 80 com som tocado em bateria, baixo… São instrumentos e estéticas que eu tinha na cabeça que decidi criar o projeto assim, com bastante influências de coisas que estou ouvindo muito, que é o lance do bedroom pop. Eu gosto de música pop, acho que a possibilidade dentro do pop é muito grande, você consegue fazer qualquer coisa se não tiver medo de fazer.

Quando começou a florescer seu lado compositor?
Aos 15 anos eu já estava compondo minhas canções. Surgiu também de uma curiosidade, mas posso dizer que mais de uma necessidade. Sempre achei mais fácil me expressar usando música, dizer o que queria, sinto que consigo me comunicar pela música. Então, chegou uma hora que eu queria externar exatamente o que estava rolando dentro da minha cabeça, na minha vida, uma necessidade de comunicação mesmo.

Você se mostra muito consciente da seriedade que implica a elaboração de uma obra, como foi pra você produzir sua primeira música?
O projeto surge com minha primeira música em 2019. Naquela época estava sem compor, me dedicando somente a mixagem e gravar música para outras pessoas, um lance que eu trabalho também. E como muitas coisas nessas vidas, o projeto surgiu com um “pé-na-bunda” que eu tomei. Fiquei mal e resolvi ocupar minha mente e tempo voltando a escrever. A primeira música não tem nada a ver com a situação, foi mais uma válvula de escape e que deu certo.

Por que escolheu iniciar seus trabalhos cantando suas músicas em inglês?
Também foi bem “natural”. Sempre escutei muita música internacional e sempre me pareceu mais fácil me expressar assim, por mais triste que pareça me expressar em outro idioma que não é o meu. A ideia de escrever em inglês surgiu com esse projeto, mas escrever em português nunca foi um problema.

E seu novo lançamento é em português, certo?
Sim, rolou de escrever em português, que surgiu de uma forma curiosa através de Lucas Silveira, da banda Fresno. Ele tava fazendo transmissão na twitch ouvindo música da galera e acabei mandando a minha. Na hora me arrependi e imediatamente sai da frente do computador. Passei dias pensando que ele não iria gostar da minha música e posteriormente ele ouviu. Ele é uma pessoa que admiro muito, um produtor gigante, então a opinião dele era muito importante pra mim e rolou que ele gostou e elogiou e lançou um desafio de fazer em português pra ver o que rolava.

Ordinary John carrega originalidade e criatividade como um projeto elegante e moderno, não somente por João Figueirôa que demonstra ser um artista excepcional e completo. Com certeza ouviremos falar mais desse projeto, então vale a pena escutar e conhecer mais um pouco.

Quer saber mais sobre o artista?

Links:
Instagram: @joaofigueiroa/
Spotify:https://open.spotify.com/artist/20EN0UW7SfGyB82OPH69ZR?si=GhDnrcUVS0ODCIHOWSgddQ
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCmSq2P3euw31Ocz5NPq45dw
Twitter: https://twitter.com/theordinaryjohn

Foto: Fernanda Leal

*Dream Pop – É um gênero musical do rock alternativo e neo-psicodelia que se desenvolveu durante a década de 1980. O gênero aborda uma preocupação com as atmosferas sonoras e texturas ambientais, tanto quanto à melodia doce e romântica.

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HYPNOS + NBOMB: para algo além de uma festa

Com o objetivo de criar, fortalecer e firmar as produções LGBTQ+ em Recife, surge o evento HYPNOS + NBOMB.

Duas produções, com foco na celebração das diversidades artísticas envolvendo questões de gênero e um local de apreciação da cultura, onde se é pautado um ambiente de conforto e acolhimento que explora movimentações multi-artísticas. Os projetos buscam conceitos estéticos dissidentes para além de DJ sets, envolvendo aspectos da performance corporal, dança, fotografia, iluminação e audiovisual.

Isso tudo e muito mais são essas duas criações que, entendendo a ausência de festas focadas em música eletrônica dentro do cenário LGBTQ+, especialmente dentro do gênero do Techno, vem alimentando a agenda noturna da nossa cidade.

Começando pelo coletivo HYPNOS, festa pioneira do estilo musical em Recife que chegou a ter 6 integrantes, atualmente produzido por Pedro Vasconcelos e Kildery Iara, tendo André Antônio e Libra como DJs residentes. O projeto se formou com a ideia de criar ambientes férteis para o que sempre foi considerado dissonante no cenário mais amplo da cidade: Experimentos visuais e de performance das mais diferentes áreas (drag, teatro, cinema e dança) explorando espaços inusitados ou desconhecidos pela cidade e tudo de uma forma acessível aos mais diversos públicos e classes.

Já a NBOMB, que tem a Vic Chameleon (modelo e DJ residente do coletivo Réverse) como fundadora do projeto, pessoa trans não-binária de Jaboatão, decidiu tomar as rédeas e tocar o projeto. Após a segunda edição, que aconteceu como festa de lançamento do premiado filme “FRERVO” dentro do festival MOV, dirigido por Libra (DJ residente da NBomb) e Thiago Santos, adentrou à produção o casal Gabe Paraíso e Sasha Dowsley; duas mulheres trans, performers e personas ativas em produções da cidade, com o intuito de investir e somar para a ação de pessoas trans em espaços de protagonismo (principal aspecto e meta da festa).

Nessa primeira edição, onde as marcas se unem para fortalecer nossa cena e firmar as produções LGBTQ+ em Recife como referência para a cidade, a HYPNOS e NBOMB trazem Carol Mattos: Co-criadora do coletivo Masterplano (BH) e atualmente atua como produtora e DJ residente do selo Mamba Negra (SP). A Mamba Negra é um selo de festa/gravadora paulista de renome nacional e internacional, com suas produções ganhando espaço em festivais do mundo inteiro. Casa e incubadora da banda Teto Preto, a festa é encabeçada por mulheres que também trabalham construindo o protagonismo de mulheres cis e trans. A Mamba Negra já esteve presente em Recife dentro do Festival No Ar Coquetel, tanto com Teto Preto como com DJ sets de Cashu (co-produtora do selo) e Entropia entalpia (recifense, residente da festa).

Batemos um papo com o Pedro, Vic, Gabe e Sasha, sobre suas dificuldades, alguns esclarecimentos, sobre performances em festas, produções mais inclusivas nos dias de hoje e muito mais.

Vamos acompanhar?

Atualmente quais as maiores dificuldades que vocês encontram?

HYPNOS + NBOMB – Construir um espaço dissonante no início de 2017 até os dias atuais, numa cidade que não se interessava pelos gêneros que apostávamos (como Techno industrial, Acid, EBM e outros experimentalismos) e que tem até hoje como base uma cultura mainstream de música foi nosso primeiro problema, que rapidamente foi desaparecendo dada a adesão do público clubber LGBTQ. Achar locações era e continua muito dificil, não tinhamos grana nem contatos mágicos que apostassem na gente. Talvez o nosso maior problema até hoje seja a invisibilização dentro dos espaços mais hegemônicos, sempre pautados por agentes que fazem parte do status quo. Isso vem se mantendo até hoje, onde artistas e produtoras LGBTQ continuam não tendo o mesmo acesso e valorização.

Sempre vimos performances artísticas nos eventos que vocês produzem, ou seja, vocês fazem questão de introduzir por compreender a força de expressão e a necessidades desses espaços que merecem ser ocupados. Recife ainda não entende muito bem essa forma de arte. O que vocês têm a dizer sobre isso?

HYPNOS + NBOMB – Na real, acreditamos que o Brasil como um todo, de alguma forma, estará preparado para absorver a expressividade corpórea pois está atrelado no âmago da cultura brasileira – seja nas performances culturais do interior, do carnaval, religiosas, enfim; nossa questão é trazer um outro aspecto, diferente sobre a ideia de performatividade.

Com o passar do tempo é perceptível a mudança nas produções de festas. É pouco, mas vocês encontram um mercado mais inclusivo?

HYPNOS + NBOMB – Sim e Não. Sim, porque depois de muita insistência e textão, corpos LGBTQ (especialmente trans) passaram a ingressar e ascender no mercado. Isso é uma luta diária de todas as artistas de praticamente todos os roles que acontecem em Recife e que é necessária. Esses corpos DEVEM ter seu valor reconhecido. Mas, ao mesmo tempo, não. Ainda encontramos um mercado largamente produzido por homens cis héteros brancos de classe média alta e se formos falar de inclusão precisamos falar de toda uma cena que continua escanteada, especialmente negra, funcionando em “ghettos” e que não tem a mesma visibilidade e acesso que poucos têm.

Na cena eletrônica de Recife algumas festas promovem a ideia de “lista trans” com o objetivo de incluir essa comunidade ao cenário. Algumas pessoas entendem isso como um processo de exclusão, de exclusividade para quem é trans. Trouxemos esta pergunta porque ninguém melhor do que vocês para falarem sobre isso, sobre esses dois pontos de vista. Qual a opinião de vocês?

HYPNOS + NBOMB – Tendo o conhecimento sobre a política de inclusão para as pessoas trans, tanto a NBomb como a Hypnos observam que é de extrema necessidade. A lista trans foi desenvolvida para inserir nos espaços aqueles corpos que diariamente são atravessados pela transfobia, vai além de isentar do pagamento, é sobre reparação história e proporcionar momentos de lazer a corpos que, em sua maioria, não possuem acesso, já que durante muito tempo pessoas trans tiveram seus direitos básicos como acesso à educação e mercado de trabalho, negados perante a sociedade, inviabilizando sua presença em N espaços. Esse projeto de inclusão é paliativo, mas uma forma muito importante de aproximar o acesso dessas pessoas para que possamos cada vez mais dar espaço e voz a esses corpos. Que esse conceito inspire a presença dessas pessoas nas áreas de produção e artística dos rolês. É sobre isso!

E como sempre perguntamos… O que vocês acham da cena de música eletrônica de Recife?

HYPNOS + NBOMB – Sempre escutamos esse termo “cena de música eletrônica de Recife” e sempre nos questionamos: “de que cena estamos falando?”. Porque existe uma gama de festas LGBTQ+, pequenas e de médio porte que estão há ANOS construindo um espaço alternativo mas que não são inseridas nessa dita cena abrangente, não são validadas e não recebem a mesma atenção e interesse do público. Muitos dizem que “vão pela música”, mas vão pela música de fato? Fazer uma co-produção entre Hypnos e Nbomb em parceria com um selo no naipe da Mamba Negra (SP) é justamente nossa forma de dizer “ei, estamos aqui! Venham conhecer e curtir com a gente!” quebrar com essa hipocrisia que segrega, construindo esse lugar onde cada vez mais o preconceito fique de lado e haja uma valorização dentro dos espaços LGBTQ também!

O evento será dia 18/10/2019 (sexta-feira), no clube Metrópole às 23h e o line será:
• Carol Mattos (SP);
• Libra;
• Cherolainne;
• Desna;
• Avenoir.

Visuais:

• Sasha;
• Kimberly;
• Lindacelva.

Link para garantir seu ingresso:

https://www.eventbrite.com.br/e/nbomb-hypnos-tickets-72594777935.

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Um projeto não só de músicos, mas de uma união de criadores.

Com o objetivo de repensar modelos de shows musicais, espetáculos e com seu nascimento focado na multilinguagem, nasceu o Estesia.

Um encontro do duo e produtores musicais Pachka (Miguel Mendes e Tomás Brandão), com o cantor e compositor Carlos Filho e o iluminador cênico Cleison Ramos, que, em conjunto, elaboraram e realizam um espetáculo imersivo. Pensado como um espetáculo teatral, contemplativo e sinestésico, o Estesia agora possui uma abordagem mais catártica e festiva para construir Zonas Anárquicas Temporárias em bares, praças, palcos e casas. Amparado por recursos tecnológicos, Estesia convida o público a acompanhar de dentro do palco uma experiência híbrida de som e luz. A música conduz o espetáculo através do remix do gênero canção e de paisagens sonoras urbanas, eletrônicas e abstratas.

Estesia é também um projeto de pesquisa de seus criadores que experimentam possibilidades performáticas ainda não nomeadas para potencializar novas conexões artísticas e experiência coletivas singulares, como foi o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco que aconteceu no fim de maio deste ano no Portomídia.

Visando não só o palco, o projeto é fragmentado em 3 vertentes onde a primeira é o Estesia Palco (um show que une canção e paisagens sonoras urbanas e eletrônicas, como mencionamos anteriormente), Estesia Arena (uma experiência imersiva e interativa de som e luz que envolve a reconfiguração de espaços, também explicada no parágrafo anterior) e por fim o Estesia Convida ( é um intervenção artística e política que envolve um debate sobre música, tecnologia e produção cultural com convidados da região, seguido de uma apresentação inédita do Estesia + Convidadxs). E é neste último que iremos adentrar a fim de apresentar e convidar para a terceira temporada do projeto que aposta no encontro entre nomes da cena cultural pernambucana debatendo arte, resistência e produção. Serão quatro momentos, em agosto e setembro, com programação que inclui performances do grupo Estesia. A programação das noites será equilibrada com momentos de conversa informal com os artistas e produtores convidados, um show do Estesia com participações especiais e uma celebração final com DJs convidados. Os encontros quinzenais acontecerão a partir das 20h. Nesta temporada, o grupo Estesia receberá convidados como o cantor Barro, a poeta Bell Puã, a escritora Clarice Freire, o projeto Arrete e diversos outros agentes criativos do estado para conversar e trocar experiências sobre suas carreiras e discutir soluções criativas para os problemas atuais do mercado da arte e da cultura. “Queremos encontrar as pessoas onde elas estiverem e, considerando os tempos difíceis que vivemos, achamos que cultivar uma alegria subversiva é também uma forma de resistência. Por isso, o Estesia Convida é um evento gratuito e aberto a intervenções. Nós também queremos ouvir as pessoas”, pontua Carlos Filho. A terceira temporada do Estesia Convida tem como parceiros a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife e o SinsPire, onde será o evento.

Conversamos um pouco com um dos produtores musicais Pachka, Miguel Mende:

Percebe-se que a maioria dos eventos que vocês promovem como, o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco e agora o Estesia convida são de graça, como é conseguir o apoio necessário (como o da secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife) para confeccionar esses eventos?

Miguel Mende – Só para diferenciar, o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco foi um evento de um trabalho feito pelo Pachka (eu e Tomás Brandão) e o Estesia é essa outra entidade maior que envolve Carlos Filho e Cleison Ramo. Esses trabalhos que a gente faz a maioria deles não tem fins lucrativo, a gente quer discutir as coisas e ao mesmo tempo queremos acessar as pessoas. Então por exemplo, o Estesia convida é um evento que desde o primeiro dia ele vem sendo sem fins lucrativos. A gente colocou ingresso da primeira vez para cobrir os custos básicos e agora neste ano, temos o apoio da secretaria de Turismo, Esportes e Lazer do Recife, mas não faz com que a gente pague o cachê. Temos muita gente que trabalha e participa do Estesia convida, mas estão lá sabendo que não tem esse fim lucrativo, então ninguém ganha. O que acontece é que todo mundo acaba ganhando experiência e networking. Queremos que eventualmente seja um evento com fins lucrativos mas para isso têm que ter grana. Então por exemplo, este ano o Estesia convida teve um apoio onde irá garantir o sistema de som, os custos básicos do evento, mas não é o suficiente para pagar a temporada inteira, por isso chamamos de apoio. Já o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco feito pelo Pachka, ele foi dentro do projeto Funcultura e por isso, conseguimos fazer este evento, que não estava planejado pois teria um viés mais acadêmico de universidade, só que mais uma vez a gente nessa “doidice” sem fins lucrativos para aumentar a possibilidade, a gente pegou o pouco a semente que tínhamos que ia ser na própria faculdade, resolvemos fazer algo maior no Portomídia para envolver mais pessoas e não ter aquele aspecto tão acadêmico. Então o que era um simpósio virou este encontro que para a gente foi bem mais significativo. Temos bastante este hábito… queríamos muito fazer ‘as coisas’ remuneradas, a gente faz sem fins lucrativos para ‘as coisas’ acontecerem, mas é mais uma estratégia de sobrevivência da gente fazer um investimento para ‘as coisas’ acontecerem, porque se a gente esperar do jeito que o Brasil se encontra não acontecem. Então, esses eventos todos, o que sustenta (sendo bem sincero) são trabalhos fora que a gente faz na música individualmente ou em grupo), o Estesia faz apresentações por fora para pagar o Estesia convida ou a gente individualmente fazendo outros trabalhos. Este é o primeiro que talvez a gente faça um investimento menor porque a secretaria já deu uma contribuição com os custos, mas no ano passado por exemplo tivemos que fazer algumas apresentações (2 ou 3) para custear o evento e no primeiro ano, tivemos muito apoio, mas mesmo assim ainda é muito difícil de sustentar. Então estamos no terceiro ano com essa cabeça de resistir e fazer as coisas acontecerem.

Conta para gente, com a proposta de discutir a arte feita no Brasil hoje, qual outras questões que serão abordadas na terceira temporada do Estesia convida?

Miguel Mende – O Estesia vem de um background dessa pesquisa e dessa exploração da gente com interação da música feita em palcos e em cenas diferentes, como no teatro, dança… essa música que interage com outras coisas, a gente tem essa experiência de fazer trilha (eu e o Thomás) e o Cleison Ramos fazendo luz e Carlos de participar de eventos como o baile do menino Deus que envolve encenação. Não é só ir lá e cantar uma música, é você ir lá e participar de alguma coisa maior que simplesmente a música e temos muito essa relação com essa reflexão, sobre o que é essa arte presencial. Hoje discutimos muito sobre no Estesia, o que faz as pessoas saírem de casa? como é que a arte pode ser algo presente na vida das pessoas? Então o que fazemos é criar eventos e oportunidades para elas refletirem sobre isso. Inicialmente fazíamos algo mais voltado a uma imersão meio espiritual, com iluminação, muito sensorial, sensitivo, com o tempo alargado para que as pessoas tivessem tempo de refletir. Só que hoje percebemos que o Brasil está muito caótico, as pessoas estão muito ansiosas e a solução que a gente teve foi dialogar com as pessoas onde elas estão e a gente acabou transformando essas novas ações do Estesia, agora em 2019 em uma proposta mais festiva, meio etílica para as pessoas também terem um grau de ‘catarse coletivo’ sabe? Que já existia no Estesia antigo mas era uma catarse comportada porque era no teatro e existia uma formalidade ainda de espetáculo que estamos quebrando e querendo transformar o Estesia mais em uma intervenção explosiva em algum lugar (qualquer lugar que seja). O questionamento que fazemos da arte no Brasil é: como a gente constrói eventos artísticos significativos e presenciais porque estamos vivendo uma vida pautada pela comunicação digital e as pessoas tem dificuldade de sair de dentro de casa e o consumo do entretenimento é um consumo que às vezes faz mal, porque não é um consumo que traga uma reflexão sobre o que está sendo feito ali, ou às vezes é um consumo legal também, onde queremos participar do mundo do entretenimento, mas levando isso que a gente faz, esse embrião que criamos no teatro e agora virou essa festa louca meio catarse, meio congregação etílica de todo mundo. Inclusive, estamos pesquisando sobre ‘zonas anárquicas temporárias’ criar espaços de uma anarquia filosófica emocional, física, temporal… criar espaços onde as pessoas possam se sentir à vontade para serem o que elas são e pensar o que elas pensam e saber ser (o famoso) ser mais.

Vocês enxergam potencial da cena eletrônica aqui em Recife? Como fazer para sair do senso comum quando o assunto é produção?

Miguel Mende – Eu e o Thomas somos de um ambiente de música instrumental e entrou no mundo da música eletrônica pela necessidade de expandir nossa paleta de sons. Queríamos fazer sons diferentes e novos e eu acho que essa é uma tendência (não só no mundo, mas em Recife). Quando fizemos o encontro de criadores e pesquisadores de música e tecnologia de Pernambuco, sentimos que tem uma latência, as pessoas não tem onde estudar (formalmente), as pessoas às vezes não se encontravam e muito menos sabem o que os outros estão fazendo. Eu vejo um potencial muito grande quando vejo uma Boikot, uma Revérse ou quando vejo uma cena de minimal surgindo e a gente quer muito participar, mas achamos que é muito importante entender e respeitar a cena atual que a cidade já tem dessa música eletrônica. Temos que ter o cuidado de não querer inventar uma cena do zero quando por exemplo (gostando ou não) já existe uma música eletrônica Pernambucana, como o BregaFunk que já tem muitos acessos. Então a gente tem sempre que pensar nisso quando queremos imaginar uma cena, temos que construir com a realidade da cidade e hoje é algo que o Estesia reflete (muito pelo Thomas que pesquisa isso) achamos que aponta para um caminho, não só um caminho do sucesso comercial, como um caminho que explora mais sonoridades, onde o instrumento musical pode ser algo além do convencional que, inclusive, pode ser algo de nossa cabeça com sons (é bem viajado, mas eu acho isso, rsrs). A cidade é muito criativa, muito musical e eu acho que para a gente sair disso, precisamos nos encontrar fisicamente e eu acho que o Estesia convida é um momento que a gente faz isso, a gente traz as pessoas para se encontrarem fisicamente e levantar problemas. E o que eu acho que as pessoas devem fazer para fortalecer a cena de Pernambuco de música eletrônica é cada grupo desses ter o seu ou alguma coisa convida, sabe?! É as pessoas provocarem o senso comum, porque as festas já são feitas e são muito boas, como a Reverse… mas eu acho que se a gente trouxesse esse momento de encontro da gente com a gente mesmo de pessoas novas que querem entrar no mercado, de novos agentes, eu acho que conseguimos sistematizar uma série de relações que permitem que a gente saia mais forte daqui, porque criar uma cena aqui é a gente trazer dinheiro para Pernambuco, investimento, grana… não tem como não falar em uma cena e em fortalecer a cadeia se a gente não fala em investimento, dinheiro e por fim, eu acho que esse debate é algo central do Estesia convida.

E por fim, o que move vocês? Ou seja, o que faz vocês fazerem o que fazem?

Miguel Mende – O que mais move a gente é a construção de novos espaços, criar novas formas e, se não existe, iremos dar um jeito de inventar. Eu acho que o Estesia é pensar um pouco nisto, essas novas formas em como a gente consegue se colocar falando de outro jeito, tendo outras relações. Por fim, seria esse amor que temos por fazer as coisas e principalmente fazer com novas formas. A gente cria um ambiente criativo, onde sentamos para criar e vai surgindo e depois queremos testar, mostrar e discutir em como outras pessoas podem fazer também.

PROGRAMAÇÃO:

Quinta-feira (15/08)

Conversa com Sunset Produções e Barro
Show Estesia + Part. de Barro
DJ

Quinta-feira (29/08)

Conversa com Bell Puã e Clarice Freire

Show Estesia + Bell Puã
DJ

Quinta-feira (12/09)

Conversa com Moacir dos Anjos & Arrete

Show Estesia + Part. de Arrete
DJ

Quinta-feira (26/09)

Conversa com A Tropa & Orun Santana

Show Estesia + Part. de Orun Santana
DJ

Show Estesia

Carlos Filho, Cleison Ramos, Miguel Mendes e Tomás Brandão Correia

SERVIÇO

ESTESIA CONVIDA

Datas: 15 e 29 de agosto e 12 e 26 de setembro

Local: SinsPire – Praça do Arsenal – R. da Guia, 237

Informações: (81) 98867-2702

Gratuito

Classificação: 16 anos

  • Foto capa: Marina Sobral
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Transformando e inspirando a cena da música

Monique Dardenne tem 35 anos e é formada em direito. Se tornar delegada federal fazia parte de seus planos até o momento em que se viu uma agente transformadora da cena musical brasileira.

Há mais de 15 anos no mercado da indústria musical e atualmente manager de artistas, fundadora da MD/Agency e co-fundadora do Women’s Music Event, uma plataforma voltada para as mulheres na música. Monique foi responsável por trazer ao Brasil, incluindo com uma edição em Recife no Forte do Brum, o Boiler Room, fundado em Londres e com o intuito de promover um intercâmbio com as cenas noturnas locais. Também trouxe ao Brasil nomes como Snoop Dogg e Pitbull. Dardenne comenta que, apesar de sua graduação na área jurídica, a faculdade da vida foi onde mais aprendeu. Assídua por música desde pequena, Monique afirma que em sua adolescência era ela quem apresentava novas músicas a seus amigos e hoje, não é diferente, com uma pesquisa aprofundada, a mesma compartilha quase que diariamente seus gostos e achados.

Conversamos um pouco com esta grande profissional e inspiração para muitas mulheres sobre sua trajetória, a plataforma Women’s Music Event (WME) e a importância de conteúdos relevantes nos dias de hoje e da cena musical recifense.

Monique, como você conheceu e adentrou nesta área musical e o que você já fez até agora?

Monique – A música sempre foi muito presente na minha vida desde pequena pois meu pai tinha um hobby que era ser DJ, lá nos anos 80. A gente tinha todo equipamento em casa e naquela época não existia a tecnologia que tem hoje, então os mixers eram modulares, sendo algo mais roots sabe? Ele também tinha uma coleção de vinil muito grande, onde ouvia Depeche Mode, New Order, ou seja, a música eletrônica dos anos 80. Em seguida teve também o irmão do meu pai que era DJ e tocava em vários locais e que me apresentou à música eletrônica que a gente ouve mais nos dias de hoje. Cresci com uma boa influência musical e tive uma escola muito boa na adolescência, pois meu pai era amigo dos donos dos clubs em São Paulo, então eu sempre tive a facilidade de entrar nos lugares.

Iniciei direito, pois queria ser delegada federal. Na faculdade, com 18 anos comecei fazendo booking pro Propulse, que na época tinha o projeto Influx, um dos primeiros Lives PAs do Brasil, e depois eu me vi desenvolvendo a cara desse projeto. Logo em seguida, me convidaram para trabalhar na agência Carambola, que fazia o Festival Tribe. Fiquei lá por quatro anos, fiz bookings de muitos artistas e pude participar de determinadas mudanças da agência. Ali, de fato, foi onde eu percebi que eu gostava tanto da música que aquele era o meu caminho, e não o direito.

Eu sempre fui muito proativa, sempre fui no detalhe, eu nunca fui muito superficial. Então se era para falar do artista, era uma coisa bem feita. Por exemplo, na época que o Gabe lançou o projeto Gabe e começou a tocar techno, essa transição eu participei completamente, da parte do CD e apresentação, todo esse pensamento já vinha dali e eu não sabia da onde vinha, mas vinha dentro de mim e eu estava conseguindo colocar em prática porque tinha conquistado o respeito das pessoas, pois levava o trabalho a sério e era ‘super’ antenada e muito nova, 23/24 anos. A partir disso, fui me aperfeiçoando com erros e acertos, tive bons professores e boas oportunidades.

Criei a MDA, agência que tenho até hoje. Eu nunca trabalhei muito com pop, sempre gostei de uma música mais conceitual e nesse meio tempo o pessoal do Boiler Room me procurou para representar eles no Brasil com minha agência, legalmente, e isso foi incrível pois comecei a trabalhar com ‘livestream’ que no Brasil não tinha. Neste momento recebi o convite para trabalhar no Skol Music na parte de relações internacionais e label manager. Lá foi uma escola, tive acesso a uma parte mais profissional, pois não somos quando o assunto é montar projeto, apresentação e captação de patrocínio.

A origem do WME veio a partir de um grupo no Facebook (Mulheres na música)?

Monique – Eu e a Cláudia Assef (jornalista especializada em música e também fundadora do WME) estávamos participando de um projeto da RedBull chamado Pulso, que é uma residência artística, e,  ao fim do evento, sentaram as 15 mulheres que estavam fazendo parte e a Cláudia começou a fazer perguntas como: você fez o Boiler Room mas quantas mulheres você colocou? E naquele momento refleti sobre e decidi conectar todas ali presente e algumas outras em um grupo no Facebook e quando deu 600 mulheres eu e a Clau sentamos para criar o evento, justamente para dar visibilidade e conexão entre as mulheres.

Existe também um banco de talentos. Como esses nomes podem ser encontrados por lá? Como funciona o cadastramento? É verdade o planejamento de um aplicativo?

Monique – Quando a gente lançou o site, porque pensamos no banco de profissionais? Pois todo mundo fala que não existe mulher fazendo alguma coisa. Aquela desculpa de: não estou chamando uma mulher porque não tem. E aí pensamos em um lugar onde as pessoas consigam achar essas mulheres nessas profissões. Criamos um lugar no site, onde se chama banco de profissionais, dividido por todos os estados do Brasil e 30 profissões. Então, qualquer mulher pode entrar lá, se cadastrar e deixar o seu perfil.

Lançamos isso a 3 anos e tem quase 1000 mulheres cadastradas e para fomentar precisa de dinheiro. A plataforma tem 5 pilares, e começamos a trabalhar a conferencia, a premiação que é o momento pop da plataforma. Enquanto isso, o site ficou parado na parte de conteúdo e a gente só movimentava quando tem os eventos e o banco de profissionais está ali, a gente não tem muita mídia, muito menos dinheiro para colocar. Mas esse ano a gente está fechando um contrato com uma marca e ela vai pagar o aplicativo para a gente começar a trabalhar e fazer mais laços. Isso não é nosso, é um mapa que a gente está fazendo as mulheres profissionais do Brasil e realmente abrindo o mercado para essas pessoas não terem mais desculpas de que não tão achando mulheres.

Como mulher, ainda vejo muitas perguntas do tipo: Como é ser mulher trabalhando em uma área onde os homens são a maioria? E sempre penso: No dia que não existir mais essas perguntas quer dizer que uma certa igualdade está sendo estabelecida. O que você acha disso? Inclusive seria um dos objetivos do WME?

Monique – Quando alguém chega para mim perguntando como é ser mulher trabalhando no mundo da música, eu pergunto: como é ser homem e usar cueca? A gente passou pelo momento onde era necessário ter esse tipo de pauta. Hoje o papel do WME é fazer conexões, criar oportunidades, mostrar o trabalho dessas mulheres e dar visibilidade, a gente não trata de nenhum assunto feminino no WME, você não vai sentar em um painel ‘Qual o papel de uma mulher no mercado da música’, já temos nosso papel, sabemos do nosso papel, agora a gente vai discutir sobre coisas do mercado que a gente não tem espaço para falar em outros lugares. Hoje ainda existem conferências que só tem homem e aí eu falo: não tem uma mulher capacitada para falar sobre esse negócio? O WME já se estabeleceu como uma conferência de música, ela não é um projeto feminino. Esse ano a gente criou diversos formatos novos para não ficar nessa de só painéis, workshops, estamos ditando tendências no mercado, por isso o WME é uma conferência de negócios.

De um aspecto geral (principalmente no sudeste do Brasil) o público está ficando mais engajado à procura de conteúdo e isso reflete nos eventos cheios como BRMC antigo RMC. Com isso, o que o conteúdo musical representa para ti, para cena e seu fortalecimento?

Monique – Existem pessoas e pessoas, as que estão ali na festa para tirar selfie, as que estão ali para dar uma paquerada e existem as que estão ali pela música. Informação é essencial, então você ter um conteúdo musical, onde você consiga trazer informação além do ‘oba oba’ é fundamental. Mas isso vai do público que você quer atingir, e o grande desafio do jornalismo musical (que praticamente não existe mais no Brasil) hoje é esse. A gente não tem mais espaço, é um álbum ou outro que a imprensa dá, mas o que estamos fazendo no WME é uma sessão ‘meu estúdio’, onde a gente entrevista mulheres produtoras sobre o processo criativo, equipamentos de estúdio para justamente tirar essa ideia de que mulher na música eletrônica não produz. Fizemos com a Nina Kraviz, com a Anna e entrevistamos a label manegement da Kompakt que é uma mulher foda, que cuida de todo processo interno e não falar: a mulher que está ali por trás… Não! é falar quem é você? O que você faz? o que está acontecendo dentro da gravadora? Qual é o seu trabalho e não porque é uma mulher, mas sim por ser uma profissional que está fazendo uma grande diferença dentro do ramo. Então é esse tipo de conteúdo que a gente precisa que não tem mais. Hoje em dia está todo mundo nas redes sociais e às vezes é confuso buscar a informação, ela está mais acessível, entretanto você tem que buscar o que você quer. Então a importância pelo conteúdo é essencial, é informação.

Aqui em Recife a realidade de presskits ou de fotos de divulgações de festas são ainda de mulheres com biquinis ou de pessoas com um certo padrão de beleza. Quais outros caminhos você sugere para que possamos mudar esta realidade?

Monique – Existe um movimento das meninas da Mamba lá em São Paulo que criaram uma festa muito foda que a conotação sexual que eles usam é a da liberdade das pessoas das mulheres. Mas eu acho que aqui a sociedade é muito machista, a mulher é bastante objetificada, então uma forma de mudança são os produtores não quererem usar essa conotação sexual. É desconstruir de dentro para fora.

Perguntas rápidas:

1-            Festas abertas ou fechadas? Fechadas

2-            Praia ou campo? Campo

3-            House ou techno? House

4-            CDJ ou Vinil? Vinil

5-            Guitarra ou baixo? Baixo

6-            Jaz ou Blues? Jaz

7-            Uma curiosidade sobre você: Pode não parecer, mas eu sou uma pessoa extremamente chorona. As pessoas acham que eu não tenho sentimento, mas eu sou mega sentimental.

Boiler Room Recife-PE.
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A música eletrônica que vem de Peixinhos – PE

A falta de incentivo e valorização dos artistas é o que impossibilita o crescimento da cena de música eletrônica em Pernambuco.

A música começou, se expandiu, e através da globalização obteve uma expansão extraordinária. A multiculturalidade, sempre presente no Nordeste, gera um orgulho de quem somos e de onde pertencemos. Sem cor nem gênero, a música independe da letra ou de seu estilo, é universal, mas sabemos que essa universalidade não é tão clara nos dias de hoje. E por isso a necessidade de conhecer uma outra realidade para que seja espalhada, e de consequência, ocorra uma valorização da cena e de nossos artistas que tanto se esforçam em busca de reconhecimento ou, às vezes, apenas para serem ouvidos.

Conversamos com Iury Andrew, estudante de 22 anos que se divide morando no bairro de Peixinhos e no Cabo. Yuri é ator e claro, DJ. Ele demonstra um posicionamento crítico e forte sobre o mercado musical em Recife, das suas dificuldades e do público caloroso que temos.

Como a música entrou na sua vida?

Yuri Andrew-  A música sempre esteve presente na minha vida, embora eu não tenha artistas na família, minha casa sempre foi muito musical. Enquanto não estava tocando um brega romântico nas sociais que mainha fazia, tocava D2, Nação Zumbi ou aquele CD pirata dos melhores black music que o meu tio ouvia. Eu conheci a música como arte através da minha tia que me apresentou o rock nacional e o internacional, como também o pop. Ela é fã do Rappa e da Amy Winehouse, mas eu percebi a música fazendo sentido para mim quando eu conheci a Pitty, no qual eu sou fã até hoje. Foi justamente por esse fanatismo que eu descobri que poderia ser fã de vários artistas. Pitty sempre teve um discurso muito amplo. “Você pode ser rockeiro e você pode ouvir um funk, sabe… você pode ouvir o que você quiser, você pode ser o que você quiser”. E foi isso que me fez amplo e estar aberto sempre a novas propostas musicais.

Qual a dificuldade de adentrar no mercado musical?

Yuri Andrew- Em primeiro lugar, eu acho que a maior dificuldade de adentrar nesse mercado é você não ser branco, em seguida é não ter os contatos certos (para ser bem sincero, rsrs).Quando você tem esses contatos, nem precisa ser bom para início de conversa. Ou seja, um bom pacote estético (que venda) e bons contatos, tudo flui mais fácil. Você nem precisa ser DJ, entende? É o que eu tenho mais visto nos últimos tempos. Então eu não posso fazer um discurso ilusório de que a maior dificuldade… é sei lá… é saber tocar, por exemplo, ou ter material. É óbvio que ninguém começa sabendo, ninguém começa sendo DJ, mas é claro e evidente o privilégio. O mercado tem crescido e com ele o ‘hype’. Eu tive bons contatos, mas também tive muita dedicação, tive que ser três vezes melhor.

Qual sua particularidade musical e o que você gosta de escutar?

Yuri Andrew – Para mim tem se concentrado na black music.  Tenho experimentado muitas coisas, pesquisado muito e tenho gostado do afrobeat, funk, afrobeat + funk, e claro, a house music, que ultimamente se encontra muito presente na minha vida. Então, eu tenho escutado muita coisa, como ‘R&B, mas, ultimamente, tenho ouvido uma música especial que se chama ‘Shea Butter Baby’-, minha preferida, lançada em 2019, de uma artista novata chamada Ari Lennoxque que em breve irá lançar o álbum. Ouço muito Amy, o novo disco da Lineker, o novo disco do Baco Exu – que não é tão novo assim –  e George Smith também.

O que é ser DJ em Recife?

Yuri Andrew – É a pergunta mais difícil, espero responder de uma forma crítica, mas não tanto, pois até agora para mim é sobre não saber se o próximo mês vai estar com uma agenda lotada ou não. Por mais que venha dando certo, ainda resta aquela dúvida. Eu não sou tão comercial e não alcanço a grande massa conservadora, que são as maiores, as festas “hétero” que dominam a cena aqui. A falta de respeito com o artista infelizmente é uma coisa que tem muito a melhorar em Recife, incluindo a valorização da cena local. Não somos alguém ali apenas para colocar música, é assim que muitos produtores lidam com a gente, artistas locais. Falta valorização, falta um cuidado, um valor dado ao nosso trabalho, sabe? É como se a gente não fosse tão artista quanto qualquer atração que vem de fora ou que tem algum nome a mais.

Não é uma questão de regalias e nem de extremismo, é uma questão de ter o cuidado certo, de ter o tratamento certo. Porém tem também a parte boa, para também não sair como o chato nessa entrevista (rsrs). Sem dúvidas o público recifense é um dos mais calorosos e receptivos, a gente tem uma magia nordestina que em nenhum outro lugar tem. Muita gente talentosa aqui, gente tocando, performando, gente fazendo a noite acontecer, a noite independente (principalmente) que admiro muito.

Instagram: @iuryandrew

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