A música eletrônica que vem de Peixinhos – PE

A falta de incentivo e valorização dos artistas é o que impossibilita o crescimento da cena de música eletrônica em Pernambuco.

A música começou, se expandiu, e através da globalização obteve uma expansão extraordinária. A multiculturalidade, sempre presente no Nordeste, gera um orgulho de quem somos e de onde pertencemos. Sem cor nem gênero, a música independe da letra ou de seu estilo, é universal, mas sabemos que essa universalidade não é tão clara nos dias de hoje. E por isso a necessidade de conhecer uma outra realidade para que seja espalhada, e de consequência, ocorra uma valorização da cena e de nossos artistas que tanto se esforçam em busca de reconhecimento ou, às vezes, apenas para serem ouvidos.

Conversamos com Iury Andrew, estudante de 22 anos que se divide morando no bairro de Peixinhos e no Cabo. Yuri é ator e claro, DJ. Ele demonstra um posicionamento crítico e forte sobre o mercado musical em Recife, das suas dificuldades e do público caloroso que temos.

Como a música entrou na sua vida?

Yuri Andrew-  A música sempre esteve presente na minha vida, embora eu não tenha artistas na família, minha casa sempre foi muito musical. Enquanto não estava tocando um brega romântico nas sociais que mainha fazia, tocava D2, Nação Zumbi ou aquele CD pirata dos melhores black music que o meu tio ouvia. Eu conheci a música como arte através da minha tia que me apresentou o rock nacional e o internacional, como também o pop. Ela é fã do Rappa e da Amy Winehouse, mas eu percebi a música fazendo sentido para mim quando eu conheci a Pitty, no qual eu sou fã até hoje. Foi justamente por esse fanatismo que eu descobri que poderia ser fã de vários artistas. Pitty sempre teve um discurso muito amplo. “Você pode ser rockeiro e você pode ouvir um funk, sabe… você pode ouvir o que você quiser, você pode ser o que você quiser”. E foi isso que me fez amplo e estar aberto sempre a novas propostas musicais.

Qual a dificuldade de adentrar no mercado musical?

Yuri Andrew- Em primeiro lugar, eu acho que a maior dificuldade de adentrar nesse mercado é você não ser branco, em seguida é não ter os contatos certos (para ser bem sincero, rsrs).Quando você tem esses contatos, nem precisa ser bom para início de conversa. Ou seja, um bom pacote estético (que venda) e bons contatos, tudo flui mais fácil. Você nem precisa ser DJ, entende? É o que eu tenho mais visto nos últimos tempos. Então eu não posso fazer um discurso ilusório de que a maior dificuldade… é sei lá… é saber tocar, por exemplo, ou ter material. É óbvio que ninguém começa sabendo, ninguém começa sendo DJ, mas é claro e evidente o privilégio. O mercado tem crescido e com ele o ‘hype’. Eu tive bons contatos, mas também tive muita dedicação, tive que ser três vezes melhor.

Qual sua particularidade musical e o que você gosta de escutar?

Yuri Andrew – Para mim tem se concentrado na black music.  Tenho experimentado muitas coisas, pesquisado muito e tenho gostado do afrobeat, funk, afrobeat + funk, e claro, a house music, que ultimamente se encontra muito presente na minha vida. Então, eu tenho escutado muita coisa, como ‘R&B, mas, ultimamente, tenho ouvido uma música especial que se chama ‘Shea Butter Baby’-, minha preferida, lançada em 2019, de uma artista novata chamada Ari Lennoxque que em breve irá lançar o álbum. Ouço muito Amy, o novo disco da Lineker, o novo disco do Baco Exu – que não é tão novo assim –  e George Smith também.

O que é ser DJ em Recife?

Yuri Andrew – É a pergunta mais difícil, espero responder de uma forma crítica, mas não tanto, pois até agora para mim é sobre não saber se o próximo mês vai estar com uma agenda lotada ou não. Por mais que venha dando certo, ainda resta aquela dúvida. Eu não sou tão comercial e não alcanço a grande massa conservadora, que são as maiores, as festas “hétero” que dominam a cena aqui. A falta de respeito com o artista infelizmente é uma coisa que tem muito a melhorar em Recife, incluindo a valorização da cena local. Não somos alguém ali apenas para colocar música, é assim que muitos produtores lidam com a gente, artistas locais. Falta valorização, falta um cuidado, um valor dado ao nosso trabalho, sabe? É como se a gente não fosse tão artista quanto qualquer atração que vem de fora ou que tem algum nome a mais.

Não é uma questão de regalias e nem de extremismo, é uma questão de ter o cuidado certo, de ter o tratamento certo. Porém tem também a parte boa, para também não sair como o chato nessa entrevista (rsrs). Sem dúvidas o público recifense é um dos mais calorosos e receptivos, a gente tem uma magia nordestina que em nenhum outro lugar tem. Muita gente talentosa aqui, gente tocando, performando, gente fazendo a noite acontecer, a noite independente (principalmente) que admiro muito.

Instagram: @iuryandrew

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